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Estudo de associação de diabetes mellitus com outras comorbidades em pacientes internados em
unidade de terapia intensiva

Study on the association of diabetes mellitus with other commorbidities in patients in cardiologic unity of intensive care

 

Laila A. Hafiz 1
Rider Nogueira de Brito Filho 2
Paulo Maccagnan 3

 

1 Acadêmica do 5º ano de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos – UNIMES
2 Médico Chefe dos Serviços de Cardiologia, UTI Cardiológica e Preceptor de Cardiologia do Hospital Ana Costa.
3 Médico Chefe do Serviço de Endocrinologia do Hospital Ana Costa.

Local onde o trabalho foi realizado: Hospital Ana Costa.
Endereço para contato: Rua Pedro Américo, 60 – 10º andar – Divisão de Ensino, Campo Grande, Santos, SP, CEP 11.075-905, e-mail: divensino@anacosta.com.br.
Recebido em 28 de setembro, 2004; aceito para publicação em 8 de outubro, 2004.

 

RESUMO

O diabetes mellitus (DM) é considerado como um distúrbio metabólico provocando hiperglicemia, prejudicando o metabolismo humano e acarretando diversas complicações. O objetivo deste trabalho foi detectar a associação do DM com comorbidades como Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS), Dislipidemia, Infarto Agudo do Miocárdio, Infecções, Coronariopatia, Miocardiopatia e Arritmia. No presente estudo foram analisados 43 casos consecutivos de pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva Cardiológica separados em dois grupos, diabéticos e não-diabéticos. Foi encontrada associação de DM em 86% dos pacientes com HAS (odds ratio 6,9, P 0,07, teste de Fisher). Concluímos que no grupo estudado houve uma forte tendência de associação entre DM e HAS, porém será necessária uma ampliação deste estudo a fim de confirmar tal achado e elucidar as questões referentes as outras patologias estudadas.
Palavras-chave: diabetes mellitus, Hipertensão Arterial Sistêmica

 

ABSTRACT

The diabetes mellitus (DM) is considered a metabolic disease caused by high levels of blood sugar, disturbing the human metabolism that cause several complications. The objective of is to detect the association of DM with high blood pressure, dislipidemic, infection, miocardium disease, coronary disease, stroke and arrhythmia. In the present study, 43 patients in the cardiologic unity of intensive terapy were separated in two groups, diabetics and no diabetics. The association of DM was founded in 86% of patients with high blood preassure (odds ratio 6,9, p=0.07, Fisher Test). We concluded that this group have had a strong tendency of association between DM and high blood pressure, but it will be necessary an ampliation of this research to confirm the questions of the other questionable diseases.
Keywords: Diabetes Mellitus, High Blood Preassure

INTRODUÇÃO

O diabetes mellitus é descrito como um grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos de múltiplas etiologias, caracterizado pela presença de hiperglicemia crônica além de alterações no metabolismo dos carboidratos, gorduras e proteínas, conseqüência de defeitos na secreção insulínica assim como na sua ação que caracterizam dois grupos em tipo 1 e tipo 2, respectivamente. Sabe-se que esta patologia é um problema de saúde pública devido a grande morbi-mortalidade que esta provoca sendo de larga importância seu diagnóstico e tratamento específicos a fim de evitar complicações tardias irreversíveis como retinopatia diabética, neuropatia, nefropatia, doenças macrovascualres, hipertensão arterial sistêmica (HAS), aterosclerose e doenças coronarianas 1,2,3,5,7. Foi observado que o índice de Insuficiência Cardíaca Congestiva em indivíduos com DM tipo 2 é significativamente maior, principalmente quando acompanhados de comorbidades como obesidade, HAS, hiperglicemia não controlada e idade avançada 5.
Os fatores de risco conhecidos para o surgimento do diabetes mellitus tipo 2 são circunferência abdominal superior a 102 cm em homens e 88 cm em mulheres; dosagem sérica de triglicérides maior ou igual a 150 mg/dl; pressão arterial acima de 130 x 85 mmHg e HDL-colesterol abaixo de 40 mg/dl em homens e de 50 mg/dl em mulheres, dosagem de glicemia de jejum maior ou igual a 110 mg/dl e/ou teste de tolerância à glicose com glicemia aos 120 minutos entre 140 e 200 mg/dl 4,5,6,7,8.
O paciente diabético depende de um bom controle metabólico para diminuir o risco de complicações, especialmente as doenças macrovasculares em indivíduos portadores de Dibetes Mellitus tipo 2. Para isso, alguns dos objetivos do tratamento são: manter a pressão arterial na média de 120 x 80 mmHg , o colesterol total abaixo de 200 mg/dl ,o HDL-colesterol maior que 45 mg/dl, o LDL-colesterol abaixo de 100 mg/dl, o triglicérides abaixo de 150 mg/dl, a glicemia de jejum inferior a 110 mg/dl e o índice de massa corpórea entre 20 e 25 2,6,7,8. No Brasil, estima-se que mais cinco milhões de indivíduos são portadores de DM, dos quais metade ainda não conhece o diagnóstico 1,3.

OBJETIVO

Detectar a associação do diagnóstico de diabetes mellitus, com outras patologias como: Hipertensão Arterial Sistêmica, Dislipidemia, Coronariopatia, Miocardiopatia, Arritmia, Infecção e Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), entre pacientes internados em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Cardiológica.

CASUÍSTICA

Foram estudados todos os 51 pacientes internados na UTI Cardiológica do Hospital Ana Costa, em Santos, no período de 3 a 22 de abril de 2004. Foram excluídos 8 pacientes que internaram nesta unidade para monitorização e cuidados intensivos na condição de pós-operatório. Dos 43 pacientes restantes, 22 eram do sexo masculino (idade: mediana =69, de 41 a 92 anos) e 21 eram do sexo feminino (idade: mediana = 71, de 27 a 80 anos).

MATERIAIS E MÉTODOS

Os 43 pacientes em estudo foram separados em 2 grupos: pacientes diabéticos (n=12) e pacientes não-diabéticos (n=31).
Foram definidos como pacientes diabéticos, aqueles com história prévia positiva para a doença ou aqueles com achado laboratorial, durante a internação de glicemia plasmática maior do que 200 mg/dL ou aqueles com uso prévio de medicação específica como insulina e anti-diabéticos orais. Apenas um paciente tinha o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1, todos os outros apresentavam características de DM tipo 2.
A HAS foi considerada presente em pacientes já com o uso de medicação anti-hipertensivas e seguidas com elevação constante dos níveis de pressão arterial durante a internação.
A dislipidemia foi considerada presente naqueles com história prévia desta comorbidade e uso de medicação hipolipemiante, ou naqueles com exames laboratoriais atuais alterados.
Em relação a coronariopatia os critérios aceitos foram os de alteração em cineangiocoronariografia ou história de revascularização miocárdica anterior.
O IAM foi definido segundo os critérios clássicos, usando para isto a história clinica, alterações eletrocardiográficas e alterações enzimáticas, inclusive a dosagem positiva de troponina.
Quanto a miocardiopatia foram definidos aqueles com alteração funcional ou aumento de câmaras cardíacas em exame atual ou anterior de ecocardiograma.
A arritmia foi considerada como patologia existente naqueles pacientes com uso de medicação específica ou documentação prévia em estudo gráfico ou naqueles internados com diagnóstico atual de arritmia.
O achado de infecção foi atribuído nos pacientes com quadro infeccioso de início durante todo o período de internação na UTI Cardiológica.
Para análise estatística foram utilizados o teste de Fisher e o teste t, para análise comparativa dos grupos estudados, e o valor de P foi considerado significante quando menor do que 0,05.

RESULTADOS

Quando comparados os dois grupos estudados (diabéticos e não-diabéticos) quanto à presença de HAS encontramos uma forte tendência de associação da HAS com diabetes mellitus , sendo que 86% dos hipertensos eram diabéticos (odds ratio = 6,9 ; P=0,07 ; teste de Fisher).
Em relação às demais patologias estudadas, sendo comparadas quanto à associação ou não com diabetes mellitus, não foram encontradas diferenças significantes (Tabela 1).
Já, quando comparado o tempo de internação entre os dois grupos, também não foram encontradas diferenças estatísticas significantes que mostrassem que o grupo dos diabéticos tivesse uma estadia hospitalar diferente dos não-diabéticos (Tabela 2).
Quando pesquisada a ocorrência de óbitos, durante a internação de todos os pacientes na UTI Cardiológica do Hospital Ana Costa, no período estudado, não foi encontrada diferença entre os grupos, apenas um paciente não-diabético morreu.

DISCUSSÃO

No presente estudo a maioria dos pacientes portadores de DM é do tipo 2, patologia diretamente relacionada à resistência insulínica e, geralmente, parte da Síndrome Metabólica (hiperglicemia, obesidade visceral, HAS e dislipidemia). Esse pacientes apresentam risco elevado de doença macrovascular, em especial doença coronariana 3. No DM tipo 2 a HAS é encontrada em 50% dos pacientes com diagnóstico inicial de DM. Além disso, os pacientes com DM tipo 2 apresentam um tempo de doença maior do que o tempo decorrido desde o diagnóstico inicial, acarretando um maior risco para ocorrência das complicações. Evidência para esse dado vem de estudo mostrando a presença de retinopatia diabética em cerca de 20% dos pacientes no momento do diagóstico 8.
Nesse estudo foi possível mostrar a forte tendência de associação da HAS com o DM, sendo que a proposta era pesquisar a influência do diabetes mellitus e das comorbidades relacionadas à Síndrome Metabólica como possíveis determinantes nas complicações cardíacas mais graves. Estudos europeus mostraram que pacientes internados portadores de DM são responsáveis por 13,8% das internações; 14,1% do custo total hospitalar sendo que 47% deste está relacionado às complicações cardiovasculares. 4

CONCLUSÃO

Concluímos que parece haver uma maior associação de diabetes mellitus e Hipertensão Arterial Sistêmica entre pacientes graves internados em unidade intensiva cardiológica. Não foi possível estabelecer outras associações entre pacientes diabéticos e a presença das patologias selecionadas para o estudo. Assim como não pôde ser estabelecida nenhuma diferença entre a duração da internação entre diabéticos e não-diabéticos. Entretanto, este estudo contou com um número pequeno de pacientes e um período de observação muito curto, o que contribuiu para diminuir o poder dos testes para análise estatística dos resultados obtidos. Será necessária a ampliação deste estudo para elucidação dessas questões no nosso meio.

 

REFERÊNCIAS

1. Chacra,A,R; Atala,S: Diabetes Mellitus. In Atualização Terapêutica Manual de Diagnóstico e Tratamento, Borges,D 2001 5,375:388

2. Sherwin,R,S: Diabete Melito. In Cecil Tratado de Medicina Interna, Gordon,N,G 2001 17:1405:1431

3. Chacra,A,R;Moisés,R: Diabetes Melito: Classificação e Diagnóstico. In Tratado de Endocrinologia e Cirurgia Endócrina, Coronho,V e col, 2001 116,924: 927

4. Oliveira, G. Excess hospitalisayions, hospital days, and impatient cost among people with diabetes in Spain, Rev Esp Cardiol 2004 27:1904-1909

5. Sociedade Brasileira de Diabetes, ano 2002, www.diabetes.org.br/home/index.php

6. Executive Sumary of the Third Report of the Nacional Cholesterol Education Program (NCEP) Expert on Dectation, Evaluation and treatment of high blood cholesterol in adults ( Adults Treatment Panel III). Jama 2001; 285; 2486-97

7. Follow up Report in the Diagnostics of Diabetes Mellitus the expert committee on the Diagnostics and Classification of Diabetes Mellitus. Diabetes Care 2003; 26: 3160-3167.

8. Uk Prospective Diabetes Study Group: intensive blood glucose control with sulphnylureas or insulin compared with conventional treatment and risc of complications in patients with tipe II diabetes. Lancet 1998; 352: 837-853.

 

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