Toxocaríase ocular -
relato de caso
Ocular toxocariasys -
case report
Maximiliano da Silva (1)
Marcos Alonso Garcia (2)
Celso Afonso Gonçalves (3)
Luciana Galera (4)
(1) Médico residente do terceiro ano de oftalmologia do Hospital Ana Costa, de Santos
(2) Médico assistente de oftalmologia do Hospital Ana Costa, de Santos, Chefe do serviço de residência médica de oftalmologia do Hospital Ana Costa - Santos
(3) Chefe do serviço de oftalmologia do Hospital Ana Costa, de Santos, Mestre em Medicina pela UNIFESP-EPM, professor adjunto de oftalmologia da UNIMES
(4) Médica Oftalmologista pelo CBO, Médica preceptora do Hospital Ana Costa - Santos
Local onde o trabalho foi realizado: Serviço de Oftalmologia do Hospital Ana Costa - Santos
Endereço para contato: Maximiliano da Silva - Rua: Walter Jobim, 518 - Carlos Barbosa - RS - Brasil - CEP: 95.185-000
Tel.: (54) 461-1716
Recebido em 27 de fevereiro, 2004; aceito para publicação em 1 de março, 2004
Resumo
A toxocaríase é a infecção causada pelo Toxocara Canis e menos freqüentemente por outros nematódios. Existem duas formas principais de toxocaríase: a síndrome da larva migrans visceral e a síndrome da larva migrans ocular. Sua maior prevalência ocorre na faixa etária infantil. Relatamos o caso de uma criança de 4 anos de idade, assim como investigação diagnóstica, manejo adequado, e uma revisão bibliográfica pertinente ao assunto.
Palavras-chave: Toxocaríase ocular; Toxocara canis; granuloma
ABSTRACT
Toxocaríasis is an infection caused by Toxocara canis and, less frequently, for other nemathelmintyes.. Its most prevalence occurs in chilhood . The authors related the case of a 4-years-old child, as well as diagnostic inquiry, adjusted handling, and pertinent bibliographyc revision about the case.
Keywords: Ocular toxocariasys; Toxocara canis; granulom
A Toxocaríase humana é uma zoonose causada por um parasita encontrado normalmente nos intestinos de cães e gatos (Toxocara canis e Toxocara cati) 1,2,3 , que atinge o homem acidentalmente, sendo a infecção por toxocara canis a mais comum e agressiva, apresentando uma soro-pre-valência em cães variável entre 3,6% a 86% conforme a região 4,5 . Estudos demográficos americanos indicam que entre 30 a 50% possuem um ou mais cães de estimação, sendo que 2,6% dos cães com mais de um ano de idade são infectados pelo toxocara.
Os ovos do parasita desenvolvem-se no solo contaminado por fezes de cães e gatos infectados. As caixas de areia para as crianças, onde os gatos freqüentemente defecam, representam um perigo, pois os ovos podem ser diretamente transferidos para a boca quando a criança brinca na areia contaminada ou a ingere 1,2,5,6 . A forma de contágio se dá através da ingestão acidental de ovos do parasita contidos no solo ou comida contaminada, sendo crianças que tem por hábito comer terra as mais propensas à infecção, uma vez ingeridos, os ovos chegam ao intestino delgado do hospedeiro humano na forma de larvas migrando pela mucosa até alcançara a circulação portal e através dos vasos sangüíneos sistêmicos podem atingir diferentes aparelhos. Existem duas formas principais de toxocaríase: a síndrome da larva migrans visceral e a síndrome da larva migrans ocular, que difere da forma visceral pelo fato do bom estado geral do paciente, geralmente do sexo masculino, pois a repercussão é somente ocular, e também pelo fato da idade de ocorrência da doença ser mais tardia [em média aos 7,5 anos]. 3,6,7 Os primeiros relatos de nematódeos intra-oculares observados no microscópio, datam de 1950, quando durante exames anatomo-patológicos em olhos enucleados, Nichols relatou a segundo estágio da larva de toxocara canis. Já Wilkinson and Welch em 1971 classificou a toxocaríase ocular em:
a)Endoftamite difusa
b) granuloma de pólo posterior e
c) inflamação periférica. (3,8)
A larva migrans ocular ocorre quando o parasita microscópico atinge o olho, sendo que normalmente a doença acomete somente um olho clinicamente, a apresentação ocular pode variar desde uma severa endoftalmite, podendo levar a descolamento de retina, hipotonia ocular, estrabismo, edema macular e catarata e até mesmo podendo culminar em atrofia ocular ou simplesmente um achado acidental em exame de fundo de olho de rotina. (3) A apresentação dos sintomas clínicos parece depender do número de larvas ingeridas e da resistência do hospedeiro. 1,2,3,4,6
MATERIAL E MÉTODOS
Apesar de pouco diagnosticada é reconhecida como sendo uma infecção comum. A intensidade do parasitismo e a localização das larvas determinarão o quadro clínico. 1,2,3,6
Relata-se o caso de uma criança, F.J.G. de 4 anos de idade, masculino, que procurou o Serviço de Oftalmologia do Hospital Ana Costa de Santos em novembro de 2002, para uma consulta de rotina. Como antecedentes pessoais, a mãe referia estrabismo (exotropia) em olho esquerdo desde os seis meses de vida, sem outras alterações relevantes. Ao exame oftalmológico apresentava acuidade visual (AV) de 0,9 em OD e conta dedos (CD) em OE c/c. O teste de hirschberg apresentou exotropia em OE.
A biomicroscopia demonstrava córnea transparente, ausência de reação de câmara anterior em ambos os olhos (AO). A pressão intra-ocular (PIO) era de 13mmHg em AO.
O exame de fundo de olho sob midríase apresentava-se dentro dos padrões da normalidade em OD. Sendo que em OE apresentava granuloma em polo posterior, com membrana epi-papilar tracionando a retina justa-posta.(Foto 1)
O exame de ultra-sonografia ocular demonstrou em OE lesão sobrelevada em polo posterior de refletividade heterogênea, com limites nítidos e sem sinais de infiltração subjacente, sugestiva de granuloma.(Foto 2 e 3).
Nos exames sorológicos, apresentou-se negativo para toxoplasmose, porém IgG positivo para toxocaríase com baixa titulação.
Foto 1
