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RELATO DE CASO

Metástase cutânea de tumor de bexiga
Cutaneous metastases from bladder cancer

Ricardo Marcondes de Mattos(1)
Woite A. Meloni(2)
Carlos Eduardo Molinari Nardi(3)

(1) Residente de Urologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
(2) Especialista pela Sociedade Brasileira de Urologia; Preceptor de Urologia do Hospital Ana Costa, Santos/Sp.
(3) Acadêmico da Faculdade de Ciências Médicas de Santos e Interno do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
Instituição: Serviço de Urologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP
Correspondência: Hospital Ana Costa Divisão de Ensino, rua Pedro Américo, 60 -10º andar, 11075-905, Santos/SP.
E-mail: mattosrm@gmail.com
Recebido em 23 de julho de 2007; aceito para publicação em 20 de agosto de 2007.

 

RESUMO

Introdução: a metástase para o sítio cutâneo a partir do carcinoma de células transicionais de bexiga é uma condição rara, podendo ocorrer quando já em estágios avançados da doença e quando há disseminação a outros órgãos. Relato de caso: a presentamos o caso de um paciente de 82 anos, do gênero masculino, com lesão em região abdominal e antecedente de neoplasia de bexiga e cistectomia há três anos; após exérese do tumor, o exame anátomo-patológico foi de metástase de carcinoma de urotelial de alto grau infiltrando a pele. O paciente evoluiu para óbito em 4 meses.

Descritores: câncer da bexiga; metástase.

 

ABSTRACT

Introduction: metastases of cutaneous of transitional cells carcinoma are rare, but they can occur in advanced stages of the illness and when another structures are compromised. Case report: we present a case of an 82-year-old man with an abdominal lesion with history of bladder cancer and partial cistectomy 3 years before; after the tumor excision, the histopathological evaluation revealed high grade urotelial carcinoma metastase infiltrating the skin.The patient died by four months.

Key words: bladder cancer; metastasis.

 

INTRODUÇÃO
O termo metástase cutânea corresponde ao desenvolvimento, no revestimento cutâneo, de um tumor maligno de origem situada à distância(1). As neoplasias que mais freqüentemente originam metástase cutânea diferem de acordo com o gênero do paciente. No feminino, o câncer de mama (69%) seguido do câncer de cólon (9%), pulmão (4%) e ovário (4%) são os mais freqüentes; já no masculino, o câncer de cólon (19%), seguido de neoplasias da cabeça e pescoço (12%)(2,3).
A história natural dos carcinomas de células transicionais passa pela invasão progressiva da parede vesical, em seguida a de estruturas adjacentes e disseminação à distância em forma de metástase(4). Quando em estádios avançados, pode apresentar disseminação metastática, especial-mente para linfonodos, osso, fígado ou pulmão(2). A metástase cutânea é extremamente rara, resultando da implantação iatrogênica em procedimentos como cistectomia parcial, cistostomia supra-púbica ou laparoscopia. A metástase primária para a pele é aceita como manifestação tardia de disseminação sistêmica(1), sendo descrita como múltiplos tumores, aparecendo quase sempre em casos nos quais já existe disseminação a outros órgãos(4). A região abdominal parece ser o local mais comum de metástase cutânea de todos os tumores malignos do trato genito-urinário(3).

RELATO DE CASO
Paciente de 82 anos, masculino, admitido no Hospital Ana Costa, Santos com lesão cutânea em região abdominal, com sangramento local e posterior eliminação de secreção purulenta. Apresentava antecedente de neoplasia de bexiga avançada, tendo realizado cistectomia parcial há 3 anos, associada a radioterapia e quimioterapia adjuvantes. Ao exame, apresentava-se em regular estado geral, desidratado 2+/4+ e extensa lesão ulcerada purulenta, com bordas hiperemiadas em região mesogástrica, referente ao sítio da cicatriz cirúrgica (figura 1).


Figura 1 - Lesão metastática abdominal

Apresentava hemograma e eletrólitos sem alterações. A radiografia de tórax revelou acentuação do interstício alveolar basal direito e obliteração do recesso costo-frênico. Na cultura da secreção, houve crescimento de Pseudomonas aeruginosa, sensível a amicacina, imipenem e meropenem. A conduta inicial foi hidratação, introdução de antibioticoterapia, utilizando ciprofloxacino e realização de curativo com soro fisiológico e neomicina na lesão em mesogastro. Após uma semana de tratamento, optou-se pela realização da exérese do tumor vesical implantado na parede abdominal. O achado anátomo-patológico foi de carcinoma urotelial de alto grau, infiltrando e ulcerando a pele. Foi solicitada avaliação com a Oncologia que não indicou quimioterapia. Recebeu alta hospitalar no segundo pós-operatório.

DISCUSSÃO
O revestimento cutâneo é um local pouco comum de metástase de tumores profundos(2), com incidência relatada de 0,73% de metástase cutânea a partir de neoplasias urológicas3. Os principais locais de metástase dos tumores da bexiga são o fígado, pulmão e osso(1).
Existem quatro mecanismos básicos de disseminação metastática para a pele: invasão direta, implantação iatrogênica, disseminação linfática e disseminação hematogênica. A região abdominal parece ser o local mais freqüente de metástase cutânea. Quando em locais mais distantes, provavelmente resultam de disseminação hematogênica(3), como para região cefálica, pescoço e face anterior do tórax(2).
A metástase cutânea pode ser classificada, clinicamente, em três grupos principais: tipo nodular (maioria), inflamatório e fibrótico ou esclerodermóide (cicatricial). Apresentam-se como lesões isoladas ou múltiplas, localizadas ou difusas, constituídas por placas ou nódulos, variando de milímetros a centímetros e coloração de eritematoso a violáceo(3). Possuem crescimento rápido em semanas ou meses, tendendo à estabilização, posteriormente(2).
Histologicamente, envolvem a derme, com extensão eventual para o subcutâneo. Preservam, na sua maioria, as características histológicas do orgão acometido, no entanto, são mais pobremente diferenciadas ou anaplásicas. A presença de invasão linfática e vascular aumenta a suspeita de metástase cutânea(3).
Quanto ao tratamento, as metástases isoladas podem ser retiradas cirurgicamente, diferentemente das lesões múltiplas, nas quais está indicada radioterapia(2).
Em nosso caso, o paciente apresentava extensa metástase cutânea em região abdominal, local de maior freqüência para o aparecimento dessas lesões. A disseminação metástatica proposta parece ser a implantação iatrogênica após realização de cistectomia parcial. Como havia acometimento localizado, foi realizada a exérese do tumor, com boa evolução no pós-operatório.

REFERÊNCIAS
1. Akman Y, Cam K, Kavak A, Alper M. Extensive cutaneous metastasis of transitional cell carcinoma of the bladder. Int J Urol. 2003;10(2):103-4.
2. Haouas N, Youssef A, Sahraoui W et al. Métastase cutanée d'une tumeur vésicale infiltrante. Progr Urologie. 2005;15:535-7.
3. Mueller TJ, Wu H, Greenberg RE et al. Cutaneous metastases from genitourinary malignancies. Urology. 2004;63:1021-6.
4. Regueiro DP, Martínez AGJ, Serrano CS et al. Metástasis cutánea de tumor urotelial vesical. Actas Urol Esp. 2003;27(1):43-6.
5. Segawa N, Kotake Y, Hamada S et al. Bladder cancer with skin metastasis: a case report. Hinyokika Kiyo 2006;52:711-4.

 

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