RELATO DE CASO
Ocorrência de difilobotríase na Paraíba não
relacionada a viajantes
Occurrence of Diphyllobothriasis in Paraíba
not related to travellers
José Ubirajara Vieira Lacerda(1)
Geraldo Gonçalves de Almeida Filho(2)
Henrique Douglas Melo Coutinho(3)
(1) Laboratório de Análises Clínicas Especializadas LACLE; Discente da Universidade do Vale do Acaraú UVA;
(2) Discente da Universidade do Vale do Acaraú UVA;
(3) Departamento de Ciências Físicas e Biológicas DCFB; Centro de Ciências Biológicas e da Saúde CCBS; Universidade Regional do Cariri URCA.
Instituição:
Correspondência: Henrique Douglas Melo Coutinho, Universidade Federal da Paraíba UFPB, Centro de Ciências Exatas e da Natureza CCEN, Departamento de Biologia Molecular DBM, Laboratório de Genética de Microrganismos LGM, 58051-900 João Pessoa, PB. E mail: hdmcoutinho@gmail.com
Recebido em 28 de julho de 2007: aceito para publicação em 23 de agosto de 2007
RESUMO
O objetivo desse trabalho foi relatar a primeira ocorrência de Diphyllobothrium latum, conhecido como “Taenia do peixe”, um dos agentes causais da difilobotríase na região Nordeste de forma não relacionada com viajantes e apresentar aos profissionais de saúde informe sobre o ciclo biológico e a epidemiologia desse cestoda.
Descritores: Diphyllobothrium latum; difilobotríase; cestoda; Taenia.
ABSTRACT
The purposen of this work was to report the first occurrence of Diphyllobothrium latum, known as “taenia of fish” and one agent of diphyllobothriasis at the Brazilian Northeastern region unrelated with travelers and show to health workers information about the biological cycle and epidemiology of this cestode.
Key words: Diphyllobothrium latum; diphyllobothriasis; cestode; Taenia.
INTRODUÇÃO
A difilobotríase é uma parasitose intestinal causada por espécies do gênero Diphyllobothrium como D. latum, D. pacificum, D. klebanovskii e D. nihonkaiense(1). Dentre as áreas de prevalência desse parasita (>2%), destacam-se áreas que incluem lagos e deltas de rios na Sibéria, por toda a Europa (principalmente Escandinávia e países bálticos)(2), América do Norte e Japão(3). Na América do Sul, a maior prevalência é encontrada no Chile, porém, casos já foram relatados na Argentina, no Peru e raramente no Brasil(4,5). O homem representa o hospedeiro definitivo desse parasito, assim como outros mamíferos que consomem peixes crus (cães, gatos, ursos, focas)(6).
O ciclo vital do parasito envolve dois hospedeiros intermediários: o primeiro é um crustáceo e o segundo será um peixe de água doce ou que migra da água salgada para a água doce durante a fase de procriação. Os ovos imaturos são liberados através das fezes. Sob as condições apropriadas, os ovos desenvolvem-se na água por um período de 18 a 20 dias até o estágio de coracídeo. Essas larvas são ingeridas pelos crustáceos e passam para a fase de procercóide. Quando o crustáceo é ingerido por pequenos peixes, a larva instala-se na musculatura do peixe e assume a forma plerocercóide capaz de infectar os mamíferos(1,6).
Como humanos não costumam ingerir peixes pequenos crus ou mal cozidos, esses não representam importante fonte de infecção humana. Entretanto, os peixes pequenos, ao serem ingeridos por outros maiores ao longo da cadeia alimentar aquática, infestam a musculatura desses animais, que são consumidos por algumas populações humanas. No hospedeiro definitivo (mamífero), essa larva atinge o intestino delgado e desenvolve-se no verme adulto, que pode atingir até 10m de comprimento e apresentar mais de 3000 proglotes. Os ovos imaturos são liberados através do rompimento das proglotes grávidas e infestam as fezes do mamífero. Se o material fecal atingir o mar, seja de forma direta ou através de rios, o ciclo recomeça. Em humanos, de cinco a seis semanas após a infecção já podem ser observados ovos nas fezes1,6.
O objetivo desse trabalho é relatar a primeira ocorrência de Diphyllobothrium latum no estado da Paraíba e a segunda no Nordeste. Este trabalho obedeceu todos os preceitos éticos determinados pela World Medical Association e pela Universidade Federal da Paraíba UFPB, tendo sua publicação sido autorizada pela paciente relatada a seguir.
RELATO DE CASO
Paciente do gênero feminino, 56 anos, natural de João Pessoa, (PB) procurou atendimento médico em 2006 relatando ocorrência de diarréia, desconforto abdominal, flatulência e dores epigátricas. Foi encaminhada para o laboratório com a requisição de um exame parasitológico de fezes seriado. As amostras foram analisadas por sedimentação espontânea pelo método de Hoffman(7) tendo sido detectada a presença de ovos operculados típicos de Diphyllobothrium latum. A referida paciente não relatou viagem a países onde a doença é comum, mas sim que consumia peixes crus, principalmente salmão, em restaurantes na grande João Pessoa.
DISCUSSÃO
O quadro sintomatológico apresentado pelo paciente tem uma correlação direta com Diphyllobothrium latum(8), o que pôde ser confirmado com o exame, muito embora essa parasitose seja freqüentemente assintomática(3).
Dois casos de difilobotríase já haviam sido relatados no Brasil na primeira metade do século 20, mas ambos em estrangeiros residentes em países onde a parasitose é comum. Um ocorreu na Bahia, em um marinheiro escandinavo e outro em São Paulo, em uma francesa residente na Suíça(9). Entretanto, nenhum caso havia sido relatado com indivíduos brasileiros, infectados antes de 2004.
Foi relatada difilobotríase por D. latum em um paciente de Porto Alegre, RS, infectado após viagem a New Orleans, Estados Unidos e países da Europa(3). No mesmo ano, identificou-se o primeiro caso no Nordeste em uma moradora de Salvador, BA(10) e em São Paulo, SP, foram estudados cinco casos entre março e agosto do mesmo ano5. Não há registro na literatura de novos casos no Nordeste até o caso relatado aqui.
A ausência de relatos pode ser indicativa de que a situação não seja preocupante, porém, o aparecimento de casos de difilobotríase em diferentes regiões do Brasil deve servir de alerta, principalmente associado ao crescente consumo de peixes crus, caracterizado pela disseminação da culinária japonesa, o que poderia representar um risco(5). Devem ser recomendadas medidas profiláticas quanto à utilização do pescado, como inspeção visual e congelamento pré-consumo(11).
Devido ao fato de o clima no Brasil dificultar a criação do salmão do atlântico, esse é então importado do Chile, onde esta parasitose é endêmica(12). Como em alguns casos observados no Brasil não há relato de viagens a países que apresentam risco para essa parasitose, pode ser que o salmão importado seja a fonte dessa parasitose, o que justifica um aumento da fiscalização da importação e do processamento do pescado, visto que medidas sanitárias para seu controle já são conhecidas(10). Todavia, não pode ser descartada a possibilidade de que o parasita tenha conseguido adaptar-se ao clima brasileiro e já esteja infectando peixes na nossa região costeira5, possibilidade que requer estudos sistemáticos com pescado para descartar tal hipótese.
Devido a isso, investigações epidemiológicas devem ser conduzidas, alem de campanhas educativas a ações fiscalizadoras tanto para evitar novos casos como para descobrir a fonte dessa infecção.
REFERÊNCIAS
1. Dick TA, Nelson PA, Choudhury A. Diphyllobothriasis: update on human cases, foci, patterns and sources of human infections and future considerations. Southeast Asian J Trop Med Public Health. 2001;32(suppl. 2):59-76.
2. Dupouy-Camet J, Peduzzi R. Current situation of human Diphyllobothriasis in Europe. Eur Surveill. 2004;9:31-4.
3. Emmel VE, Inamine E, Secchi C, Brodt TCZ, Amaro MCO, Cantarelli VV, Spalding S. Dyphillobothrium latum: relato de caso no Brasil. Rev Soc Bras Med Trop. 2006;39(1):82-4.
4. Semenas L, Kreiter A, Urbanski J. New cases of human Diphyllobothriasis in Patagonia, Argentina. Rev Saude Publica. 2001;35:214-6.
5. Sampaio JLM, Andrade VP, Lucas MC, Fung L, Gagliardi SMB, Santos SRP, Mendes CMF, Eduardo MBP, Dick T. Diphyllobothriasis, Brazil. Emerg Infect Dis. 2005;11(10):1598-1600.
6. Von Bonsdorff B. Diphyllobothriasis in man. London: Academic Press; 1977.
7. Hoffmann WA, Pons JA, Janer JL. Sedimentation concentration method in schistosomiasis, Puerto Rico. J Publ Health. 1934;9:283-8.
8. King CH. Cestodes. In: Mandell GL, Bennett JE, Dolin R, organizadores. Principles and practice of infectious diseases. 6ª ed. Philadelphia: Elsevier; 2005. p. 3285-93.
9. Coutinho E. Tratado de clínica das doenças infectuosas, parasitárias e peçonhentas. 6ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1957.
10. Santos FLN, Faro LB. The first confirmed case of Diphyllobothrium latun in Brazil. Mem Inst Oswaldo Cruz. 2005;100(6):685-6.
11. Food and Drug Administration (FDA). Fish & fisheries products hazards & controls guide. 2ª ed. Washington, DC: FDA - Office of seafood; 1998.
12. Torres P, Aedo E, Figueroa L, Siegmund I, Silva R, Navarrete N, Puga S, Marin F, Aedo E. Inféccion por helmintos parasitos en salmón coho, Oncorhynchus kisutch, durante su retorno al rio Simpsom, Chile. Bol Chil Parasitol. 2000;55:31-5.