ARTIGO ORIGINAL
Controle do perfil lipídico na prevenção primária
e secundária de doença arterial coronariana
Lipidic profile control for coronary artery disease primary
and secondary prevention
Juliano M. Pereira(1)
Sérgio Luz Rios(2)
Rider Nogueira Brito Filho(3)
Instituição: Serviço de Cardiologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
Correspondência: Rua Goiás, 66, Bairro Boqueirão, CEP 11500-100, Santos/SP.
Email: Julianompcard@hotmail.com.br
Recebido em 4 de janeiro de 2006; aceito para publicação em 2 de junho de 2007.
RESUMO
Introdução: existe uma forte correlação entre dislipidemias e doença arterial coronária (DAC). Objetivo: avaliar a efetividade no controle dos níveis lipídicos em pacientes dislipidêmicos para prevenção primária e secundária de DAC no Ambulatório do HAC. Pacientes e método: o estudo contou com 43 pacientes dislipidêmicos selecionados aleatoriamente entre os que freqüentam o ambulatório do HAC e divididos em dois grupos, um sem histórico prévio de infarto do miocárdio (IM) e outro com antecedente de IM, sendo excluídos aqueles com dosagem de níveis lipídicos realizados em um período menor do que três meses da data em que ocorreu o IM. Os níveis de TGL, LDL e HDL desses pacientes foram analisados em dois momentos distintos, comparando-se ambos para verificar o grau de controle desses fatores. Resultados: no grupo da prevenção primária, não houve diferença estatística entre os valores iniciais de TGL e HDL e os valores controles. Houve diminuição estatisticamente significante nos valores de LDL. No grupo da prevenção secundária, não houve diferença estatística entre os valores iniciais de TGL, HDL e LDL e os valores controles. Conclusão: o controle dos níveis lipídicos nos pacientes dislipidêmicos em nosso meio encontra-se inadequado.
Descritores: infarto miocárdico; dislipidemias; prevenção primária; prevenção secundária.
ABSTRACT
Introduction: there is a strong correlation between dyslipidemias and the coronary arterial disease. Objective: to evaluate the effectiveness of the lipidic level control in two groups of patients with dyslipidemia. Patients and methods: all patients were randomly selected among the ones under treatment in the Ana Costa's Hospital. The first group included dyslipemic patients considered to primary prevention of CAD and the second one included dyslipemic patients with previous myocardial infarction who has considered to secondary prevention, excluded patients with lipidic levels checked until three months after IM. The levels of TGL, LDL and HDL of 43 patients were checked in two distinct moments comparing it each other to analyze the proper control of it. Results: the primary prevention group did not present statistic difference values between the initial and the final lipidic dosages for TGL and HDL levels. There was statistic significant diminution between the initial and the final values of LDL. The secondary prevention group did not present statistic difference values between initial and final levels of lipidic dosages for TGL, HDL and LDL. Conclusions: the control of lipidic levels in those dyslipidemic patients were inadequate.
Key words: miocardial infarction; dyslipidemias; primary prevention; secondary prevention.
INTRODUÇÃO
As doenças cardiovasculares ocupam hoje o primeiro posto na lista das principais causas de mortalidade nos países desenvolvidos e também no Brasil(1,2). Dentro desse grupo, especial atenção é dispensada à doença aterosclerótica coronariana (DAC), dados os importantes níveis de incidência, prevalência, morbidade e mortalidade a ela associados.
Há diversos fatores relacionados à maior incidência de DAC, tais como HAS, DM, dislipidemias, tabagismo, dentre outros(3,4). O controle desses fatores de risco desempenha papel fundamental na prevenção de eventos mórbidos de etiologia coronariana, sendo um dos principais objetivos a serem alcançados no manejo dessa doença. O trabalho de prevenção torna-se ainda mais essencial em indivíduos que já apresentaram infarto agudo do miocárdio (IAM), pois os mesmos são mais suscetíveis a desenvolver novo evento e com maior repercussão clínica do que pacientes sem IAM prévio(5).
Em relação à dislipidemia pacientes nos quais se reduziram as taxas de LDL apresentaram importantes benefícios na diminuição de eventos cardiovasculares, melhora da qualidade de vida e na redução da mortalidade(6-10). Níveis elevados de HDL também se correlacionaram com menor ocorrência de eventos(11,12). A hipertrigliceridemia demonstrou pequena relação com o aumento da incidência de DAC, particularmente em pacientes com níveis baixos de HDL(13).
O histórico de IAM deve servir como grave alerta tanto para o médico quanto para o paciente, podendo atuar como um efetivo instrumento de conscientização de ambos, com vistas à melhoria dos aspectos preventivos e terapêuticos. O objetivo desse tra-balho é avaliar a eficácia do controle de dislipidemia em pacientes, tanto na prevenção primária quanto na prevenção secundária de eventos cardiovasculares.
PACIENTES E MÉTODO
Foram avaliados 42 pacientes dislipidêmicos, por meio de estudo de casos e controles, dos quais 13 eram do gênero masculino e 29 do feminino. Os pacientes foram divididos em dois grupos, o primeiro englobando aqueles sem antecedentes de IAM (para avaliação de prevenção primária) com 24 indivíduos e o segundo grupo, considerando pacientes com IAM prévio (para avaliação de prevenção secundária), com 18 pacientes. Os pacientes foram arrolados no Ambulatório de Cardiologia do Hospital Ana Costa, cujos perfis lipídicos foram dosados entre os anos de 2002 a 2005.
Os critérios de inclusão foram, para o grupo 1, indivíduos que apresentavam alterações do perfil lipídico em exames laboratoriais do HAC e sem histórico de IAM e, para o grupo 2, pacientes que apresentavam alterações do perfil lipídico em exames laboratoriais do HAC e com histórico de IAM. O IAM (com e sem supra de ST) foi definido com base nos critérios clássicos por meio de história clínica, alterações eletrocardiográficas e alterações enzimáticas compatíveis.
- DLP: indivíduos com LDL > 130mg/dL (valor estabelecido conforme recomendação sugerida na III Diretriz Brasileira de Dislipidemia) ou HDL < 40mg/dL.
- Hipertrigliceridemia: indivíduos com triglicérides séricos > 200mg/dL.
O critério de exclusão foi, no caso do grupo com histórico de IAM, pacientes cuja dosagem lipídica controle tenha sido realizada com menos de três meses do pós-infarto.
O estudo foi retrospectivo, com avaliação de prontuários para confirmação de IAM e perfil lipídico prévios. Realizou-se divisão dos grupos em pacientes com e sem IAM prévio. Os dados referentes aos valores lipídicos prévios e nos exames-controles foram tabulados, com discriminação dos dados referentes aos perfis lipídicos de cada grupo.
A análise estatística para avaliação do grau de controle dos níveis lipídicos em questão em um grupo e posteriormente no outro foi feita por meio da comparação entre os valores de lípides entre os exames prévios e exames-controles, com a verificação da presença ou ausência de diferença estatisticamente significante na taxa de controle do fator analisado intra e intergrupos. Para a análise estatística, foram utilizados o teste t pareado, considerando na análise comparativa P significante a um valor < 0,05.
RESULTADOS
Na comparação entre os valores prévios e de exames-controles dos níveis lipídicos, encontraram-se os seguintes resultados para cada grupo:
No Grupo 1 ( pacientes de prevenção primária ) o teste t pareado para TGL, LDL e HDL demonstrou que: para o TGL e HDL não houve diferença estatística entre os valores iniciais e valores controles; já para o LDL houve diminuição dos valores desse lípide quando comparados os valores iniciais com os controles com diferença significativa (Tabela 1).
Tabela 1 - Teste T pareado

No Grupo 2 (pacientes de prevenção secundária), o teste t demonstrou que não houve diferença estatisticamente significante para nenhuma das 3 variáveis analisadas (Tabela 2).
Tabela 2 - Teste T pareado

DISCUSSÃO
O presente estudo visa traçar um panorama da situação atual do tratamento das dislipidemias em nosso serviço. Em relação ao grupo da prevenção primária, considerando-se apenas a variação numérica dos níveis lipídicos, houve um relativo êxito no objetivo de se diminuir os valores de LDL, o mesmo não se verificando com os níveis de triglicérides. Também não houve efetividade no intento de elevarem-se os níveis de HDL.
Já no caso do grupo de prevenção secundária, os resultados evidenciam um quadro ainda mais preocupante, pois nenhum dos fatores analisados demonstrou diferença estatística entre os níveis de TGL, LDL e HDL na comparação entre os valores aferidos antes e depois do IAM. Levando-se em conta que essa população tem risco de eventos maior do que os da população em prevenção primária, a constatação de que na prevenção secundária os resultados são inferiores aos do Grupo 1 mostrou-se inesperada.
Cabe salientar que esse estudo analisou apenas as variações entre as médias de perfil lipídico dos grupos como um todo, isto é, o fato de ter havido no grupo de prevenção primária uma diminuição dos níveis de LDL não significa necessariamente que esses pacientes tenham individualmente atingido os níveis preconizados desse lípide. No entanto, esse estudo contou com um número de pacientes reduzido, o que limita uma generalização das conclusões, trazendo a necessidade de estudos futuros com maior abrangência.
CONCLUSÃO
Em nosso meio, aparentemente, o controle das dislipidemias encontra-se aquém do esperado, tanto nos pacientes em prevenção primária quanto na secundária.
REFERÊNCIAS
1. CDC. Deaths: Leading Causes for 2002. National Vital Statistics Reports 2005;53(17).
2. DATASUS/SVS/Ministério da Saúde, Brasília-DF, 2004.
3. Neaton JD, Wentworth D. Serum cholesterol, blood pressure, cigarette smoking, and death from coronary heart disease. Overall findings and differences by age for 316,099 white men. Multiple Risk Factor Intervention Trial Research Group. Arch Intern Med. 1992;152(1):56-64.
4. Castelli WP, Garrison RJ, Wilson PW, Abbott RD, Kalousdian S, Kannel WB. Incidence of coronary heart disease and lipoprotein cholesterol levels. The Framingham Study. JAMA. 1986;256(20):2835-8.
5. Santos RD. Sociedade Brasileira de Cardiologia. III Brazilian Guidelines on Dyslipidemias and Guideline of Atherosclerosis Prevention from Atherosclerosis Department of Sociedade Brasileira de Cardiologia. Arq Bras Cardiol. 2001;77 Suppl 3:1-48.
6. Sacks FM, Pfeffer MA, Moye LA, Rouleau JL, Rutherford JD, Cole TG, Brown L, Warnica JW, Arnold JM, Wun CC, Davis BR, Braunwald E. The effect of pravastatin on coronary events after myocardial infarction in patients with average cholesterol levels. Cholesterol and Recurrent Events Trial investigators. N Engl J Med. 1996;335(14):1001-9.
7. The Long-Term Intervention with Pravastation in Ischemic Disease (LIPID) Study Group. Prevention of cardiovascular events and death with pravastatin in patients with coronary heart disease and a broad range of initial cholesterol levels. N Engl J Med. 1998;339:1349-57.
8. Shepherd J, Cobbe SM, Ford I, Isles CG, Lorimer AR, MacFarlane PW, McKillop JH, Packard CJ. Prevention of coronary heart disease with pravastatin in men with hypercholesterolemia. West of Scotland Coronary Prevention Study Group. N Engl J Med. 1995;333(20):1301-7.
9. Downs JR, Clearfield M, Weis S, Whitney E, Shapiro DR, Beere PA, Langendorfer A, Stein EA, Kruyer W, Gotto AM. Primary prevention of acute coronary events with lovastatin in men and women with average cholesterol levels: results of AFCAPS/TexCAPS. Air Force/Texas Coronary Atherosclerosis Prevention Study. JAMA. 1998;279(20):1615-22.
10. Robins SJ, Collins D, Wittes JT, Papademetriou V, Deedwania PC, Schaefer EJ, McNamara JR, Kashyap ML, Hershman JM, Wexler LF, Rubins HB; VA-HIT Study Group. Veterans Affairs High-Density Lipoprotein Intervention Trial. Relation of gemfibrozil treatment and lipid levels with major coronary events: VA-HIT: a randomized controlled trial. JAMA. 2001;285(12):1585-91.
11. Shepherd J, Blauw GJ, Murphy MB, Bollen EL, Buckley BM, Cobbe SM, Ford I, Gaw A, Hyland M, Jukema JW, Kamper AM, Macfarlane PW, Meinders AE, Norrie J, Packard CJ, Perry IJ, Stott DJ, Sweeney BJ, Twomey C, Westendorp RG; PROSPER study group. PROspective Study of Pravastatin in the Elderly at Risk. Pravastatin in elderly individuals at risk of vascular disease (PROSPER): a randomised controlled trial. Lancet. 2002;360(9346):1623-30.
12. Wolfrum S, Jensen KS, Liao JK. Endothelium-dependent effects of statins. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2003;23(5):729-36.
13. Cullen P. Evidence that triglycerides are an independent coronary heart disease risk factor. Am J Cardiol. 2000; 86:943-9.