ARTIGO ORIGINAL
Prevalência de excesso de peso e risco de
doença cardiovascular em uma Unidade Básica
de Saúde
Prevalence of weight excess and risk of cardiovascular disease
in public healthy service
Gustavo Duarte Pimentel(1)
(1) Nutricionista graduado pela UNIMEP Campus-Lins/SP, atualmente é aprimorando; especializando em Cuidados Nutricionais do Paciente e do Desportista pela Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP.
Correspondência: Gustavo Duarte Pimentel, Rua Mario Lopes Leão, 60-A, CEP 18603-460, Botucatu/SP
E-mail: gupimentel@yahoo.com.br
Recebido em 4 de janeiro de 2007; aceito para publicação em 26 de março de 2007.
RESUMO
Introdução: nos últimos anos, no Brasil e em países do mundo desenvolvido, a obesidade tornou-se um problema de saúde pública mais importante que a desnutrição. Objetivo: avaliar o estado nutricional e verificar quais são os hábitos de vida de uma população atendida em uma Unidade Básica de Saúde do Noroeste Paulista (Lins/SP). Pacientes e método: a população foi constituída por 34 pacientes com idade aproximada de 5 a 69 anos. Todos os atendimentos foram realizados pelo próprio pesquisador por meio de um questionário previamente formulado. As medidas antropométricas utilizadas foram: massa corporal (kg), estatura (m), circunferência da cintura (CC) (cm) e circunferência do quadril (cm). A distribuição da gordura corporal foi estimada pela relação cintura-quadril e da medida da CC (cm). Resultados: a maioria dos pacientes era do gênero feminino (79,4%) e consumia bebida alcoólica (28,0%). Cerca de 72,72% não realizava atividade física e 20% fumavam. Segundo diagnóstico clínico, 50% da população atendida tem sobrepeso ou obesidade. O índice de massa corporal mostrou que 31,58% das mulheres encontram-se com sobrepeso e/ou obesidade grau I. Além disso, 72,7% das mulheres adultas têm risco de doença cardiovascular. Conclusões: os achados do nosso estudo sugerem o desenvolvimento de programas de prevenção primária ao nível da comunidade.
Descritores: índice de massa corporal; obesidade; relação cintura-quadril; doença cardiovascular, antropometria.
ABSTRACT
Introduction: in recent years, obesity has become a major public health problem in Brazil and in developed countries. Objective: to evaluate the nutritional state and to verify which are the habits of life of a taken care population in a public healthy services (Lins/SP). Patients and methods: the population was constituted by 34 patients with age varying from 5 to 69. All services were carried through by the proper researcher through a questionnaire previously formulated. Anthropometry measures were considered: body mass (kg), stature (m), waist circumference (WC) (cm), and hip circumference (cm). The distribution of the body fat was esteemed by the waist-to-hip ratio and of the measure of the WC (cm). Results: most of the patients were women (79.4%), and drank alcohol (28.0%). About 72.72% did not practice any physical activity and 20.0% smoked. According to the clinical diagnosis, 50% of the taken care population has overweight or obesity. The body mass index showed that 31.58% of the women with overweight and/or grade 1 obesity. Moreover, 72.7% of the adult women had cardiovascular disease risk. Conclusion: the findings of our study suggest the development of programs of primary prevention the level of the community.
Key words: body mass index; obesity; waist-to-hip ratio; cardiovascular disease; anthropometry.
INTRODUÇÃO
A saúde pública é a arte e a ciência de prevenir as doenças, prolongar a vida e melhorar a saúde e eficiência mediante o esforço da comunidade para o saneamento do meio, o controle das doenças transmissíveis, a educação dos indivíduos, a organização dos serviços médicos e de enfermaria para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo das doenças e o desenvolvimento de um mecanismo social que certifique a cada pessoa um nível de vida adequado para a conservação da saúde, de tal modo que cada cidadão encontre-se em seu direito de saúde(1).
O nutricionista que atua em saúde pública deve sempre prestar informações ao público por meio dos veículos de comunicação e deve conscientizar a sociedade e mobilizar o governo para a busca de soluções que amenizem a situação alimentar brasileira(2).
Com prevalência variando de 10 a 40%, o excesso de peso é hoje um dos maiores problemas de saúde no país e esse elevado índice alerta para um importante problema de saúde pública. No Brasil, o custo anual da obesidade é de quase R$ 1 bilhão, sendo usado para pagar internações, consultas e remédios. Os Estados Unidos gastam em torno de US$ 50 bilhões por ano para tratar da obesidade e suas conseqüências3. Nos últimos anos, no Brasil e em países do mundo desenvolvido, a obesidade tornou-se um problema mais importante que a desnutrição(4).
Em relação ao diabetes, cerca de 90% dos casos em mulheres são devidos à falta de exercício físico, excesso de peso, dieta mal controlada e fumo(5).
Embora a obesidade seja um fator de risco para a mortalidade e doença cardiovascular (DCV) na população em geral(6), essa associação é pouco estudada entre pacientes intolerantes a glicose (IGT), particularmente na área da nutrição(7).
A obesidade está diretamente relacionada com IGT, pois, além de outros fatores, nas gorduras abdominais é produzida a resistina, hormônio relacionado à resistência à ação da insulina (RI)(8,9). Em contrapartida, mostrou-se que a resistina não é associada com as DCV, mas é elevada em pacientes que sobreviveram ao infarto do miocárdio(10).
Baseado nisso, o objetivo desse trabalho foi avaliar o estado nutricional e verificar quais são os hábitos de vida de uma população atendida em uma Unidade Básica de Saúde do Noroeste Paulista (Lins/SP).
PACIENTES E MÉTODO
A população de estudo foi constituída por 34 pacientes com idade aproximada de 5 a 69 anos, atendidas em uma Unidade Básica de Saúde (UBS), que é de responsabilidade do município. A pesquisa foi desenvolvida durante os meses de agosto e setembro de 2005.
Os atendimentos foram realizados ao público que freqüentava a UBS, sendo consultas individuais, agendadas e realizadas de segunda a sexta-feira. As consultas duraram, em média, 50 minutos, sendo que todos os pacientes atendidos apresentaram-se por livre e espontânea vontade ou por encaminhamento do médico clínico geral ou pediatra.
Todos os atendimentos foram realizados pelo próprio pesquisador por meio de um questionário previamente formulado. Foram analisadas as medidas antropométricas de massa corporal (kg), estatura (m), circunferência da cintura (CC) (cm) e circunferência do quadril (CQ) (cm). Para a avaliação da massa corporal utilizou-se balança Filizola®, com variação de 0,1kg e capacidade de até 150kg. No momento da avaliação, os participantes foram orientados a utilizar roupas leves e a ficarem com os pés descalços. Para a tomada da CC, a fita foi posicionada ao redor da menor curvatura localizada entre o rebordo costal e a crista ilíaca. A mensuração da CQ foi realizada posicionando-se a fita ao redor da região do quadril, na área de maior protuberância(11).
A distribuição da gordura corporal foi estimada pela relação cintura-quadril (RCQ) e da medida da CC (cm). Foram utilizados os pontos de corte propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS)(12) para RCQ, CC e IMC (kg/m2).
Com relação à orientação nutricional, os pacientes receberam dicas qualitativas referente à doença que apresentavam e, em alguns casos, eram entregues folders explicativos. Em relação às análises estatísticas, foram aplicados média e desvio-padrão.
RESULTADOS
Dos 34 pacientes atendidos, 27 (79,4%) eram do gênero feminino e 7 (20,6%) do masculino.
A tabela 1 mostra que 50% da população atendida tinham sobrepeso ou obesidade, isto é, um dado alarmante pois o excesso de peso pode levar a várias outras doenças, como Diabetes mellitus tipo 2 (DM2), hipertensão arterial, RI e hipercolesterolemia, aumentando ainda mais o risco desses pacientes terem DCV.
Dos 34 participantes do estudo, sete (20,58%) eram crianças (até 12 anos de idade) e dois (5,88%), adolescentes (= 13 anos de idade). A média de idade das crianças foi de 5,85 ± 3,93 anos e dos adolescentes, 15,5 ± 2,12 anos, mostrando que havia mais crianças (77%) que adolescentes. Com relação aos adultos e idosos (n = 25 indivíduos), observamos que a média de idade dos adultos (até 64 anos, n=22) foi de 36,5 ± 12,76 anos (64,7%) e dos idosos (= 65 anos, n=3) foi de 69 ± 6,08 anos (8,82%), mostrando que a maioria dos pacientes atendidos 88% era adulta.
De acordo com a tabela 2, a maioria das crianças e adolescentes (33,34%) encontra-se no P/I entre 10-50. Em relação a E/I a maioria das crianças e adolescentes 33,34% encontra-se no P 50-90, o que mostra um bom crescimento para idade.
Tabela 1 - Distribuição dos atendimentos de acordo com o diagnóstico clínico.
*DM2- diabetes mellitus tipo 2
**HAS- hipertensão arterial sistêmica
Tabela 2 - Distribuição dos atendimentos de acordo com os percentis de P/I e E/I de crianças e adolescentes.

*P/I- peso para idade, **E/I- estatura para idade
De acordo com a tabela 3, os pacientes foram classificados segundo seu Índice de Massa Corporal (IMC), podendo-se observar que 31,58% dos pacientes do gênero feminino encontram-se com sobrepeso e obesidade grau I. Já no gênero masculino, 33,33% encontram-se em eutrofia, sobrepeso e obesidade grau II. Portanto, os atendimentos de ambos os gêneros tiveram prevalência 31,81% de usuários com sobrepeso.
Em relação ao IMC de idosos (somente homens), 33,33% encontram-se com baixo peso (desnutrição), 33,33% estão na média (eutrofia) e 33,33%, acima da média (sobrepeso).
A tabela 4 mostra que 60% dos adultos e idosos apresentam CC muito aumentada e 66,67% dos homens apresentam normais e 63,64% das mulheres muito aumentado. Ao avaliar o risco de DCV, pode-se observar que a maioria, 68% da população atendida, tem risco.
Tabela 3 - Distribuição dos atendimentos de acordo com IMC de adultos.
Segundo a Tabela 5, a grande maioria da população atendida (76%) é sedentária e somente 24% pratica atividade física regular (no mínimo, 150 minutos/semana). Esse é um fator que, se somado à alimentação inadequada, aumenta os índices de pacientes com sobrepeso e obesidade. Em relação ao tabagismo, a maioria dos indivíduos (80%) não fuma, sendo que 100% dos homens não fumam e 77,27% das mulheres não fumam. Esse dado difere entre os gêneros devido ao maior número dos atendimentos ter sido do feminino. Quanto ao hábito de consumir bebida alcoólica, a grande maioria (72%) dos indivíduos não consome, já os 28% que consomem relataram a cerveja como a mais freqüente.
DISCUSSÃO
Em pessoas com peso normal, a maior parte do tecido adiposo está localizada sob a pele, atuando como protetor contra a perda de calor, o que é chamada de gordura subcutânea. Os indivíduos com sobrepeso ou obesos, além da gordura subcutânea, carregam tecido adiposo na região abdominal, o que representa uma importante reserva de energia, chamada de tecido adiposo visceral, mas que contribui para muitas das doenças associadas à obesidade(13).
Quando o tecido adiposo acumula-se predominantemente na região abdominal, há um predomínio da gordura visceral e diz-se que a pessoa apresenta obesidade do tipo andróide ou tipo "maçã". Se a tendência é acumular gordura na região dos quadris e coxas, a obesidade é classificada como ginóide ou tipo "pera"(14).
Evidências sugerem que a prevalência do sobrepeso e obesidade tem aumentado em taxas alarmantes, incluindo países desenvolvidos e subdesenvolvidos. De acordo com a classificação da OMS, 54% dos adultos nos EUA estão com sobrepeso (IMC =25 kg/m2) e 22% estão obesos (IMC =30 kg/m2)(15).
Tabela 4 - Distribuição dos atendimentos de acordo com CC e RCQ (risco de DCV) de adultos
e idosos.

DCV- doença cardiovascular
Tabela 5 - Distribuição dos atendimentos de
acordo com os hábitos de vida.

De acordo com a Tabela 4 (CC), podemos observar que 60% da população atendida tem risco muito aumentado de complicações metabólicas associadas à obesidade. Já um estudo feito em Bauru/SP, com 640 indivíduos nipo-brasileiros, mostrou que 51,7% apresentam risco aumentado de complicações associadas à obesidade(16).
A importância das medidas antropométricas tem sido demonstrada em diversos estudos(17,18). A CC apresenta boa associação da gordura central, quando comparada ao DEXA (Dual-Energy X-ray Absorptiometry)(18).
Com relação à pratica de exercícios físicos regulares (24%), aparentemente são iguais à encontrada em um estudo realizado no estado do Paraná, onde verificaram 21,1% de indivíduos ativos(19).
Em outro estudo, o tabagismo ficou em torno de 4,9%; já na presente pesquisa, representou 20%. No Brasil e nos EUA, o tabagismo é a principal causa dos cânceres de pulmão, laringe, cavidade oral, faringe e esôfago, sendo que nos EUA o tabagismo é responsável por cerca de um terço do total de mortes por câncer(20).
No presente estudo, o consumo de bebida alcoólica foi em torno de 28% dos indivíduos e, segundo CEBRID(21), a proporção de dependentes de álcool é de 20% para homens e 10% para mulheres. No Brasil, a prevalência de alcoolismo atinge proporções de 3,4 a 9%.
Observada a prevalência de sobrepeso/obesidade e risco de DCV na população estudada, está claro que deve haver incremento em nível ambulatorial, além de outros serviços, no nutricional. Segundo a OMS, a Nutrição tem como prioridade a promoção da saúde da comunidade e a prevenção de diversas doenças crônicas(22). Em obesos, o objetivo é reduzir a glicose sangüínea a níveis normais, manutenção do estado metabólico normal (glicemia, lipídeos e aminoácidos sangüíneos normais), prevenção de complicações agudas e crônicas e mudanças no estilo de vida, como suspensão do tabagismo, prática de, no mínimo, 150 minutos de atividade física aeróbica e anaeróbica na semana e reorganização de hábitos alimentares(23,24).
Portanto, salientamos que, em uma população atendida em UBS, o índice de sobrepeso/obesidade e risco de DCV é muito alto entre as mulheres, o que torna necessário o desenvolvimento de programas educacionais ao nível da comunidade e a inclusão da equipe multiprofissional (incluindo o nutricionista), para que se consiga obter melhor qualidade de vida e ausência da obesidade entre os usuários do Sistema Único de Saúde.
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