ARTIGO DE REVISÃO
Administração de oxintomodulina como
terapia para excesso de peso e obesidade
Oxyntomodulin may be effective as therapy for overweight and obesity
Gustavo Duarte Pimentel(1)
(1) Nutricionista residente em Bioquímica Nutricional e Dietética; especializando em Cuidados Nutricionais do Paciente e Desportista pelo Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP/SP.
Instituição: Faculdade de Medicina de Botucatu - FMB/UNESP.
Correspondência: Gustavo Duarte Pimentel, Rua Mario Lopes Leão, 60-A, CEP 18603-460, Botucatu/SP. E-mail: gupimentel@yahoo.com.br
Recebido em 21 de março de 2007; aceito para publicação em 25 de março de 2007
RESUMO
A prevalência da obesidade está aumentando e estudos mostram que, em 2025, o Brasil será o quinto país do mundo a apresentar problemas de obesidade em sua população. A obesidade é um dos principais problemas de saúde pública da atualidade, apresentando etiologia multifatorial. Fatores como a mudança do hábito alimentar e o estilo de vida sedentário, aliados a determinantes genéticos ainda pouco conhecidos, desempenham um papel relevante na patogênese dessa doença. Entre os determinantes fisiológicos do controle do peso e do apetite estão fatores neuronais, endócrinos, adipocitários e intestinais. Nos últimos dez anos, desde o descobrimento do hormônio leptina, avanços consideráveis foram obtidos na caracterização dos mecanismos hipotalâmicos do controle da ingestão alimentar. Sua ação primária ocorre no núcleo hipotalâmico arqueado, no qual inicia uma cascata de eventos para inibição da ingestão energética e/ou aumento do gasto energético. No sistema nervoso central, a oxintomodulina interage com receptores hipotalâmicos, favorecendo a saciedade. Os peptídeos intestinais, combinados a outros sinais, podem estimular (grelina e orexina) ou inibir (oxintomodulina, colecistoquinina, peptídeo YY e leptina) a ingestão alimentar.
Descritores: hormônios gastrointestinais; agentes anti-obesidade; perda de peso; obesidade.
ABSTRACT
The prevalence of obesity is rising around the world and studies show that in 2025, Brazil will be the fifth country in the world presenting obesity problems. Obesity is currently one of the main problems of public health, presenting multifactorial etiology. Environmental factors, such as changes in life-style and feeding behavior associated with poorly characterized genetic determinants are thought to play the most important role in the pathogenesis of this disease. The main involved factors in the control of weight and appetite are neuronal, endocrine, adipocity, and intestinal. During the last ten years, since the discovery of leptin, great advances have beene obtained in the characterization of the hypothalamic mechanisms involved in the control of food intake. Its primary action occurs in the arcuate hypothalamic nucleus, where it begins a cascade of events that inhibits energy intake and/or enhances energy consumption. Thus, this review will focus on the role of both leptin and ghrelin in controlling body weight and the ongoing limitations in treating obesity in human beings. In the central nervous system, the oxyntomodulin interact with hypothalamic receivers favoring the satiety. The intestinal peptides, associated with other signals, can stimulate (greline and orexine) or inhibit (oxyntomodulin, cholecystokinin, peptide YY and leptine) the food intake.
Key words: gastrointestinal hormones; anti-obesity agents; weight loss; obesity.
INTRODUÇÃO
A prevalência da obesidade está aumentando e estudos mostram que, em 2025, o Brasil será o quinto país do mundo a apresentar problemas relacionados à obesidade(1).
Diversos fatores podem atuar na regulação da ingestão alimentar e contribuir para o aparecimento e a manutenção do excesso de peso, entre eles, fatores neuronais, endócrinos, adipocitários e intestinais(2). Após a descoberta da leptina, várias pesquisas têm sido realizadas em busca de entender os sinais reguladores do apetite, da homeostase energética e da massa corporal. Além disso, pode-se dizer que diversos peptídeos sintetizados e secretados pelo trato gastrintestinal possuem essas funções(3).
Entre os hormônios, pode-se citar a oxintomodulina (OXM) que é um peptídeo composto por 37 aminoácidos(4,5) liberado em resposta à ingestão alimentar e proporcionalmente ao conteúdo energético(5). Dentre suas principais funções, a OXM tem sido considerada um potente agente anti-obesidade, por suas possíveis ações na regulação energética.
OBJETIVO
Trata-se de uma breve revisão que tem como objetivo descrever os aspectos do hormônio intestinal OXM envolvidos na gênese da obesidade.
MÉTODO
A metodologia consistiu na busca de artigos por meio do banco de dados PubMed e Periódicos Capes, sendo que todos os artigos úteis obtidos por meio da busca eletrônica foram analisados pelo próprio autor, estabelecendo critérios de prevenção e tratamento semelhante aos utilizados na prática, pesquisa ou experimento clínico.
RESULTADOS
O intestino, sistema nervoso central, metabólitos circulantes e o tecido adiposo estão todos em conjunto no controle da ingestão alimentar e na tentativa de manter a massa ponderal(6).
Ao administrar OXM via injeção no cérebro de ratos, ocorreu diminuição do consumo alimentar e do ganho de peso5. Com isso, pode-se dizer que a liberação pós-prandial de OXM sinaliza a ingestão alimentar para os centros regulatórios do apetite no cérebro como, por exemplo, o hipotálamo. O alto nível de OXM circulante na corrente sanguínea secundária à estimulação no intestino por meio da ingestão energética ativa o hipotálamo (centro da saciedade) e, assim, provocam alterações do apetite e da homeostase energética (figura 1), Esses mecanismos podem ser comprovados quando ocorre ingestão de alimentos ou em momentos onde é injetada OXM via intracerebroventricular, periférica ou subcutânea.
O uso da OXM em roedores por um curto período de tempo reduz a ingestão energética. Foi observada que a OXM injetada via peritoneal diminuiu a ingestão alimentar durante a noite e a rápida alimentação. Após sete dias da administração de OXM, houve redução do ganho de peso corporal e adiposidade(7). Esses fatores envolvidos na alteração da massa corporal devem-se ao aumento do gasto energético(8). Já o efeito anorético da OXM periférica pode ser devido ao aumento na estimulação do hormônio α-melanocortina, que é um produto da pró-opiomelanocortina que age via receptores melanocortina para inibir o apetite(9).
Quando administrada intravenosamente, a OXM reduz a ingestão energética em 19±6% em pacientes com peso normal5, ao passo que, em indivíduos em sobrepesos e obesos, a administração subcutânea de OXM tem um déficit superior a 25% da ingestão energética quando aplicada 30 minutos pré-prandial. Nesse mesmo estudo realizado com 14 voluntários com excesso de peso, verificou-se que, em quatro semanas, foi possível reduzir o peso corporal em 2,3±04 kg (2,4±04%)(10).
Recentemente, outra pesquisa mostrou que a administração de OXM em voluntários sobrepesos e obesos por quatro dias aumentou significativamente o gasto energético(10).
Portanto, desde 2002, os estudos mostram que a OXM promove um balanço energético negativo, diminui o peso corporal em indivíduos com excesso de peso e que dessa forma pode representar um futuro da terapia anti-obesidade(10,11).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desde a década de 80, as pesquisas têm explorado o papel da OXM por parecer efetiva no tratamento e na prevenção da obesidade. Porém, os trabalhos ainda são insuficientes na identificação dos reais efeitos metabólicos, bioquímicos e moleculares desse hormônio, havendo necessidade de mais estudos.

REFERÊNCIAS
1. Damaso A. Etiologia da obesidade. Rio de Janeiro: Medsi; 2003.
2. Halpern ZSC, Rodrigues MDB, Costa RF. Determinantes fisiológicos do controle de peso e apetite. Rev Psiq Clin. 2004;31(4):150-3.
3. Wynne K, Stanley S, Bloom S. The gut and regulation of body weight. J Clin Endocrinol Metab. 2004;89:2576-82.
4. Bataille D, Gespach C, Tatemoto K et al. Bioactive enteroglucagon (oxyntomodulin): present knowledge on its chemical structure and its biological activities. Peptides. 1981;2(Suppl 2):41-4.
5. Cohen MA, Ellis SM, Le Roux CW et al. Oxyntomudulin suppesses appetite and reduces food intake in humans. J Clin Endocrinol Metab. 2003;88(10):4696-701.
6. Baynes KCR, Dhillo WS, Bloom SR. Regulation of food intake by gastrointestinal hormones. Curr Opin Gastroenterol 2006; 22(6):626-31.
7. Dakin CL, Small CJ, Batterham RL et al. Peripheral oxyntomodulin reduces food intake and body weight gain in rats. Endocrinology. 2004;145(6):2687-95.
8. Dakin CL, Small CJ, Park AJ, Seth A, Ghatei MA, Bloom SR. Repeated ICV administration of oxyntomodulin causes a greater reduction in body weight gain than in pair-fed rats. Am J Physiol Endocrinol Metab. 2002;283:E1173-7.
9. Wynne K, Bloom SR. The role of oxyntomodulin and peptide tyrosine-tyrosine (PYY) in appetite control. Nature. 2006;2(11):612-20.
10. Wynne K, Park AJ, Small CJ et al. Subcutaneous oxyntomodolin reduces body weight in overweight and obese subjects: a double-blind, randomized, controlled trial. Diabetes. 2005;54(8):2390-5.
11. Wynne K, Bloom SR. The role of oxyntomodulin and peptide tyrosine-tyrosine (PYY) in appetite control. Nature. 2006;2(11):612-20.
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