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ARTIGO DE REVISÃO

Fibras alimentares no câncer colo-retal
Dietary fibers in colorectal cancer

 

Gustavo Duarte Pimentel(1)
Érick Prado de Oliveira(1)

 

(1) Nutricionista residente em Bioquímica Nutricional e Dietética; especializando em Cuidados Nutricionais do Paciente e Desportista pelo Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu UNESP/SP.
Instituição: Faculdade de Medicina de Botucatu - FMB/UNESP.
Correspondência: Gustavo Duarte Pimentel, Rua Mário Lopes Leão, 60-A, CEP 18603-460, Botucatu / SP. E-mail: gupimentel@yahoo.com.br
Recebido em 7 de fevereiro de 2007; aceito para publicação em 22 de fevereiro de 2007

 

RESUMO

No Brasil, o câncer do cólon e reto é o quinto tumor maligno mais freqüente entre homens e o quarto entre as mulheres. Para 2006, foram estimados 234.570 casos novos para o gênero masculino e 237.480 para o feminino. Tanto a predisposição genética quanto os fatores ambientais estão envolvidos em sua gênese. Entre eles a alimentação é o mais importante. Nesse sentido, uma dieta rica em gordura saturada e pobre em fibras favoreceria o desenvolvimento de um tumor em indivíduo predisposto geneticamente. Atualmente, os estudos ainda são insuficientes na identificação dos efeitos das fibras alimentares, pois pesquisas recentes vêm contradizendo as anteriormente concluídas. Sendo assim, mais estudos no câncer são imprescindíveis. Contudo, os profissionais da saúde, principalmente os nutricionistas e médicos, ainda preconizam dieta balanceada, rica em fibras alimentares, pobres em gorduras e em carboidratos simples, com o objetivo de prevenir doenças crônicas.

Descritores: fibras na dieta; câncer colo-retal; prevenção de doenças.

 

ABSTRACT

The colorectal cancer is the fifth most frequent tumor among men and the fourth among women in Brazil. It was expected 234.570 new cases for men and 237.480 for women for 2006. Both the genetic predisposition and the environmental factors are involved in its genesis, being the nourishment the most important. Thus, a diet rich in saturated fat and poor in fibers would favor the development of a tumor in genetically predisposed fellows. The current studies are still insufficient in the identification of the effects of dietary fibers because recent researches have being contradicting previous ones regarding this issue. As a result, further studies about feeding in cancer are essential. However, the health professionals, mainly the dietistic and physicians, still praise a balanced rich diet in fibers, low fat and simple carbohydrate diet, in order to avoid chronic diseases.

Key words: dietary fibers; colorectal neoplasms; disease prevention.

 

INTRODUÇÃO

Atualmente, uma variedade de pesquisas têm levantado o papel das fibras alimentares (FA) na redução do risco de câncer(1,2). Entende-se por FA o conjunto de alimentos vegetais e integrais que resistem à hidrólise pelas enzimas endógenas do tubo digestório. Tais resíduos alimentares não são digeridos, possuem baixo valor calórico, passam para as fezes e são degradados no intestino grosso(3).
As FA são consideradas o principal componente de vegetais, frutas e cereais integrais, razão pela qual tais alimentos são incluídos na categoria dos alimentos funcionais, pois sua utilização, dentro de uma dieta equilibrada, pode reduzir o risco de algumas doenças, como as coronarianas e certos tipos de câncer(4), além de agregar uma série de benefícios5. Baseado nisso, esse trabalho tem como objetivo discutir os possíveis aspectos relacionados ao consumo de FA e tratamento ou prevenção do câncer colo-retal.

MÉTODO
A técnica adotada foi a revisão de literatura, com o seguinte critério de inclusão: pesquisas experimentais ou clínicas relatando o câncer coloretal, baseada no consumo de FA, na prevenção e nos avanços da dietoterapia, que podem ser úteis para o tratamento clínico, visando retardar o progresso da doença.
A busca dos artigos foi realizada nos bancos de dados Medline, Lilacs e Scielo (1987 até 2007). Na busca pela base de dados, as seguintes palavras-chave foram empregadas: fibras na dieta, câncer, quimioprevenção, nutrição, bem como os respectivos termos em inglês. Todos os artigos úteis obtidos por meio da busca eletrônica foram analisados pelos próprios autores, estabelecendo critérios de prevenção nutricional semelhante aos utilizados na prática e pesquisa clínica.

RESULTADOS
Câncer colo-retal
Epidemiologia
No Brasil, o câncer do cólon e reto é o quinto tumor maligno mais freqüente entre homens e o quarto entre as mulheres. A maior incidência ocorre entre as idades 50 e 70 anos, porém, as possibilidades de desenvolvimento já aumentam a partir dos 40 anos6. Para o ano 2006, foram estimados 234.570 casos novos para o gênero masculino e 237.480 para o feminino. Dados do INCA6 estima que o câncer de pele não melanoma (116 mil casos novos) será o mais incidente na população brasileira, seguido pelos tumores de mama feminina (49 mil), próstata (47 mil), pulmão (27 mil), cólon e reto (25 mil), estômago (23 mil) e colo do útero (19 mil).
A maior incidência de câncer foi encontrada para ambos os gêneros no estado do Rio Grande do Sul, 27,68 e 28,7 casos para cada 100.000 habitantes do gênero masculino e feminino, respectivamente6.
Já nos Estados Unidos, o câncer colo-retal é a segunda maior causa de morte por câncer(7).

Fatores etiológicos
Tanto a predisposição genética quanto os fatores ambientais estão envolvidos em sua gênese(8). Em relação aos fatores ambientais, observa-se que a alimentação é o fator mais importante9. Uma dieta rica em gordura saturada e pobre em FA favoreceria o desenvolvimento de um tumor em indivíduo predisposto geneticamente(10). Isso pode ter implicação ampla e complexa, dado o grande número de alimentos, mesmo entre os vegetais(8).
O excesso de ingestão de carnes vermelhas e álcool aumenta o risco de câncer de cólon e reto(8,9,11). O excesso de carne é fator de risco devido às aminas heterocíclicas (AHCs). Esses carcinógenos químicos provêm de aminoácidos, proteínas e creatinina, quando expostos a altas temperaturas e ao sofrem desnaturação(12).
A vida sedentária tem sido relacionada ao aumento do câncer colo-retal13. A prática regular de exercícios provoca alterações na imunidade. Pesquisas epidemiológicas sugerem que pessoas fisicamente ativas têm menor incidência de infecções bacterianas, virais e neoplasias(14,15).
A maioria dos estudos epidemiológicos correlaciona peso corporal e câncer de cólon, mas não leva em consideração a dieta ou a atividade física. Ainda não existe evidência suficiente que o sobrepeso por si só seja associado ao risco de câncer. Já a obesidade pode estar correlacionada como um marcador para aumento do risco de câncer de cólon, assim como para o alto consumo de energia através de gordura e para a diminuição da atividade física(16). Além disso, a obesidade visceral é citada como um dos tipos de excesso de peso que mais influenciam o risco do câncer colo-retal(9).
Também se nota uma estreita relação com doenças inflamatórias intestinais. Normalmente, lesões neoplásicas polipóides benignas representam uma etapa antes da malignização(10).

Possíveis diagnósticos
A descoberta de pólipos adenomatosos colo-retais (precursores do câncer colo-retal) e de tumores localizados é efetiva e possível através da pesquisa de sangue oculto nas fezes e métodos endoscópicos, contudo, mesmo em países com recursos abundantes (não é o caso do Brasil), têm-se encontrado dificuldades na avaliação diagnóstica com exames endoscópicos em pacientes com presença de sangue oculto nas fezes, o que impossibilita um rastreamento em nível populacional(17).

Prognóstico
O prognóstico do câncer de cólon e reto pode ser considerado de moderado a bom, sendo o de reto o tipo mais prevalente no mundo (depois do câncer de mama). A sobrevida média mundial é em torno de 44%(17).

Relação entre fibra alimentar e câncer colo-retal
A maioria das FA são carboidratos (CHO), que não são capazes de serem digeridos pelas enzimas do trato digestório humano(18). Em virtude disso, permanecem no lúmen intestinal sem função de nutriente, mas com importante atuação no peristaltismo(19). A FA é constituída por 30-90% de polissacarídeos, sendo principalmente a hemicelulose e a lignina(20).
São derivadas de vegetais resistentes à ação das enzimas digestivas humanas, podendo ser classificadas em FA solúvel e FA insolúvel, de acordo com a solubilidade de seus componentes em água. A maior parte das pectinas, gomas e certas hemiceluloses é FA solúvel, enquanto celulose, algumas pectinas, grande parte das hemiceluloses e lignina são FA insolúveis(21-23).
Os efeitos fisiológicos devem-se a algumas propriedades das estruturas das FA. De modo geral, os polissacarídeos viscosos retardam o esvaziamento gástrico para o intestino delgado, sendo esse mecanismo o responsável pela menor absorção intestinal. Já o volume fecal é aumentado pelas FA consumidas, retenção e absorção de água(24,25). Também são importantes na manutenção e renovação do epitélio intestinal porque podem formar por meio de fermentação ácidos graxos de cadeia curta (AGCC) e alguns gases. Esses AGCC estão envolvidos na regulação da divisão e morte celular, atuando no ritmo normal de renovação do epitélio digestivo(26,27). Sendo o principal responsável por isso, o butirato, quando analisado in vitro, apresenta uma ação supressora na proliferação celular, inibe a síntese de DNA e regula a diferenciação terminal de células neoplasicas cultivadas, tendo ainda efeito modular na estrutura primária da cromatina(28-30).
Dieta muito baixa em gordura (10-15% kcal/dia) e alta em FA (30-40g por 1000 kcal/dia), combinada com exercícios diários, resulta em maior redução nos fatores de risco de câncer de mama em mulheres pós-menopausa com sobrepeso/obesidade(31). Em alguns países, o consumo ainda é baixo, como no Japão, em que o consumo de FA caiu devido às mudanças dos hábitos alimentares(32). O baixo consumo é responsável por mudanças no estilo de vida33. A ingestão de FA em uma população da região metropolitana (Cotia/SP) foi abaixo do recomendado(23).
Os fruto-oligossacarídeos (FOS) são oligossacarídeos originados de produtos vegetais(35), chamados açúcares não convencionais e têm tido impacto na indústria do açúcar devido às suas excelentes características funcionais em alimentos, além de seus aspectos fisiológicos e físicos(36).

Quadro 1 – Fontes alimentícias de FA de várias origens.


Adaptado de Pimentel34.

O consumo de FOS auxilia a redução da potencialidade de várias doenças humanas normalmente associadas com o alto número de bactérias intestinais patógenas, como doenças autoimunes, câncer e constipação(37).
Um alto consumo de FA resultou em um efeito protetor para esse tipo de câncer(38). Em avaliação de 1.065 casos incidentes de câncer de reto, observou-se que, com a recomendação adequada de FA, houve uma redução de 42% do tumor(39).
Uma revisão realizada na Noruega(11) concluiu que o aumento de 65% de verduras e frutas pode diminuir a incidência de câncer em 23%, também estimando que a ingestão de uma dieta equilibrada, junto com uma atividade física regular e uma massa corpórea adequada, possa reduzir sua incidência em 30 a 40%.
Foram avaliados os diferentes padrões alimentares e o câncer de cólon40 e concluíram que o consumo de grãos integrais, ao invés de grãos refinados, reduz e previne seu risco(9).
A alta fermentabilidade das FA favorece o crescimento da mucosa do intestino grosso e dos colonócitos em utilizar os AGCC como fonte de energia, podendo ainda auxiliar na hipertrofia da mucosa e desenvolver células saudáveis(41). Portanto, estudos mostram que o butirato protege o cólon contra o desenvolvimento de câncer devido à inibição do crescimento de células cancerosas.
As FA insolúveis em água, como as ligninas, celuloses e algumas hemiceluloses possuem importante papel na prevenção do câncer de cólon devido à capacidade de reduzir o trânsito intestinal, aumentar o volume fecal, tornar mais lenta a absorção da glicose, retardar a digestão do amido, reduzir a taxa de proliferação celular colônica(42,43) e ainda inibir ou interromper o ciclo êntero-hepático dos ácidos biliares e, conseqüentemente, diminuir o colesterol.
A FA solúvel, como a aveia, possui β-glucana, existindo evidências de que elas agem como protetores ao desenvolvimento de câncer de cólon(44,45).
Na Carolina do Norte, foram estudadas 349 pessoas caucasianas e 294 negras, onde se compararam o uso de laxantes, constipação e câncer de cólon e o resultado encontrado foi que as mulheres negras com constipação parecem ter risco aumentado de desenvolver o câncer. Entretanto, não houve associação aparente do uso de laxante com o risco de tumores e o consumo de FA comerciais pode ter efeito benéfico para baixar o risco de câncer(46).
Em estudo de 725.628 homens e mulheres, durante 6 a 20 anos, verificou-se que a ingestão de 30g/d de FA, sendo cereais, frutas e vegetais, não foi associado com o risco do CA colo-retal47. Em revisão de 28 casos-controles, houve maior efeito protetor ao câncer com o consumo de vegetais do que com frutas e o efeito protetor dos vegetais foi estatisticamente significante no câncer de cólon, mas não no de reto, enquanto que, para frutas, a proteção foi mais forte para câncer de reto do que de cólon(48). A ingestão de vegetais, frutas e FA está fortemente associada ao diagnóstico de câncer de cólon na idade mais avançada(49).
Em contrapartida, na avaliação de 48.835 mulheres na pós-menopausa, com idades de 50-79 anos, durante 8,1 anos, mostrou-se que a dieta baixa em gorduras e com aumento em frutas, vegetais e FA não diminuiu o risco de câncer colo-retal. Desse total de participantes, 19.541 (40%) pertenciam ao grupo educativo(50).
É importante salientar que a maioria dos estudos relata que especialmente os vegetais crus e as frutas têm melhores propriedades anticâncer. Além das FA, a suplementação de ácido fólico também está descrita na literatura por ter ação na redução dos riscos de câncer colo-retal(9).

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desde a década de 70, um grande número de pesquisas explorou o papel das FA no câncer colo-retal e em sua prevenção51. Espera-se, no futuro, que mudanças no hábito alimentar possam influenciar nos mecanismos de carcinogênese(52). Os trabalhos ainda são insuficientes na identificação do papel das FA, pois pesquisas recentes vêm contradizendo as idéias anteriormente concluídas e mais estudos são imprescindíveis. Contudo, os profissionais da saúde, principalmente os nutricionistas e médicos, ainda preconizam uma dieta balanceada rica em FA, pobre em gorduras e CHO simples, no sentido de prevenir doenças crônicas não transmissíveis como o câncer.

 

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