ARTIGO DE REVISÃO
Arenavírus: Fatores de virulência
Arenavirus: Virulence factors
Ana Larissa de Melo Bezerra(1)
Élida Lívia Rafael Dantas(1)
Evelyne Márlia Fernandes de Andrade(1)
Willma José de Santana(2)
Luciana Barreto Silveira de Sousa(3)
(1) Estudante de Graduação da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte.
(2) Docente e coordenadora da Disciplina de Microbiologia da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte.
(3) Docente da Disciplina de Microbiologia da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte.
Local onde o trabalho foi realizado: Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte.
Endereço para contato: Profª Willma José de Santana, Av. Tenente Raimundo Rocha s/n, CEP 63180-000, Juazeiro do Norte/CE, e-mail: wjsantana@hotmail.com
Recebido em 3 de maio, 2006; aceito para publicação em 30 de maio, 2006.
RESUMO
Os Arenavírus são vírus de RNA que, atualmente, são alvo de inúmeras pesquisas para serem utilizados como arma biológica. Essa família é comumente dividida em Arenavírus do Velho Mundo e do novo mundo, sendo representada pelos vírus Sabia, Lassa, Machupo e Junin. São causadores da febre hemorrágica, que possui alta taxa de mortalidade; da febre Lassa, muito comum no Oeste da África e da coriomeningite linfocítica, que se inicia por uma gripe e atinge as meninges e o cérebro. Podem ser encontrados em secreções respiratórias, sangue, urina e sêmen. Os roedores são fatores de risco principais para a transmissão a seres humanos.
Palavras-chave: Arenavírus; vírus Lassa; coriomeningite linfocítica; fatores de virulência.
ABSTRACT
Arenavirus are RNA virus that currently are target of many researches to be used as a biological weapon. This family usually is divided in Arenavirus of the old world and the new world, represented by the viruses Sabia, Lassa, Machupo and Junin. It is the agent of the hemorrhagic fever that possesses high mortality rates. The Lassa fever is very common in the West of Africa, whereas the lymphocytic choriomeningitis is initiated with a grippe and reaches the brain. They can be found in respiratory secretions, blood, urine and semen. The rodents are the main factors of risk for the transmission to the Humans.
Keywords: Arenavirus; Lassa virus; lymphocytic choriomeningitis; virulence factors.
INTRODUÇÃO
Convivemos diariamente com um número incalculável de seres invisíveis, como vírus e bactérias, que estão em constante equilíbrio com a natureza, mas alguns desses seres representam uma grande ameaça, causando diversas doenças na espécie humana.
Detemo-nos aqui aos vírus, que podem causar ao homem a febre hemorrágica, de onde resultam altos índices de mortalidade. Podem ser causada por quatro famílias distintas: os Arenavirídeos, Filovirídeos, Bunyavirídeos e Flavirídeos(1).
Este trabalho restringe-se aos Arenavírus, que são semelhantes a pequenos grãos de areia, tendo como exemplos os vírus Machupo, Junin, Lassa e Sabia(2) que, no Brasil, causam terror semelhante ao Ébola.
Os outros vírus foram detectados na América do Sul e são tão letais quanto o Sabia. O vírus Junin é o causador da febre hemorrágica da Argentina, o vírus Guanarito é o responsável pela febre hemorrágica da Venezuela e o vírus Machupo, causador da febre hemorrágica da Bolívia. Todos apresentam alta mortalidade em humanos.
Arenavírus
O Arenavírus é um vírus de RNA de sentido duplo, com dois segmentos para replicação, circundado por uma ou mais proteínas (capsídeo) e também possui um invólucro lipídico(3). Este o torna menos resistente, pois, por serem derivado de membranas de células infectadas, são sensíveis a solventes e detergentes não iônicos que os destroem facilmente(4). Porém, por possuírem essas características semelhantes as da membrana, conseguem entrar facilmente na célula, por isso, possuem maior poder infectante.
Esses vírus causam doenças humanas severas e podem ser uma ameaça como agentes do bioterrorismo(5,6).
A infecção ocorre em estágios. Primeiro, ocorre uma interação de uma proteína da superfície do vírus com uma molécula presente na superfície celular, sendo esse processo chamado adsorção. Após a adsorção, o vírus penetra através da membrana celular ou funde-se a ela, perdendo sua sensibilidade ao anticorpo neutralizador. Segundo, o genoma viral é liberado no citoplasma com uma RNA-polimerase associada e uma ou mais proteínas acessórias. A RNA-polimerase viral transcreve os RNA mensageiros (RNAm), assim como RNA antigenômico completo, que é o molde para a replicação do RNA genômico. Os RNAm codificam a RNA polimerase e os fatores associados, assim como as proteínas estruturais virais. Terceiro e último, os vírus da família Arenavírus são montados no citoplasma, logo após a síntese do RNA e das proteínas estruturais, sendo já organizados. Ao saírem por brotamento, adquirem seu invólucro(4,7).
Os Arenavírus infectam cronicamente roedores, com uma relação surpreendente entre a espécie de vírus e a de roedor. Os seres humanos infectam-se por inalação de aerossóis contendo Arenavírus, que são, então, depositados nas vias respiratórias terminais e, provavelmente, também por contato íntimo com roedores e suas excreções, que resulta na contaminação de mucosas ou soluções de continuidade na pele(8).
Os vírus da febre hemorrágica (FH) podem estar presentes no sangue, na urina, nas secreções respiratórias e no sêmen(9).
Dois grupos dos Arenavírus são atualmente conhecidos: o Arenavírus do Velho Mundo, como o vírus da coriomeningite linfocítica (LCMV) e o vírus de Lassa (10) e o Arenavírus do Novo Mundo, um grupo mais extenso, com o vírus de Tacaribe como o protótipo(10,11).
Os Arenavírus do Novo Mundo têm sido divididos previamente em três classes principais, A, B e C, com todos os vírus causadores de FH, sendo membros da classe B. Esses incluem os vírus de Junin, Machupo, Guanarito e Sabia, que são a causa do FH argentina, FH boliviana, FH venezuelana e um único exemplo fatal do FH no Brasil, respectivamente. Esses vírus de FH do Novo Mundo resultam, geralmente, na doença com mortalidade mais elevada (20 a 30%) do que a febre de Lassa(10). O vírus da coriomeningite linfocitária pode ser mais encontrado na América do Norte e Europa; o vírus da febre de Lassa é mais encontrado na África e o vírus da febre hemorrágica da América do Sul é característico da América do Sul(8).
Febre de lassa
A febre de Lassa é uma infecção causada por Arenavírus e é transmitido aos seres humanos através do contato com animais infectados ou com vetores artrópodes(12). Os roedores são os principais responsáveis pela transmissão aos seres humanos(13), produzindo febre, vômito e hemorragia(8). A maior patogenicidade do Lassa vírus é devida ao invólucro resistente que ele possui, o qual o protege dos efeitos do interferon (IFN)(14).
Tem-se estimado que a febre Lassa cause 5.000 mortes, anualmente, no Oeste da África. Exige um isolamento rigoroso dos casos. A vacinação é a medida de controle mais viável(15).
Seu período de incubação varia entre 5 e 16 dias e possui 15% de taxa de letalidade. É mais especificamente encontrada no Oeste da África e atinge ambos os gêneros e todas as idades. Suas infecções são leves e, provavelmente, comuns em aproximadamente 80% dos casos8. O vírus Lassa é transmitido dos roedores aos seres humanos pelo contato com urina ou fezes animais ou sangue uniforme que contém níveis elevados do vírus. A transmissão entre seres humanos foi relatada em conseqüência da exposição ao sangue e ao contato sexual(16).
O caso típico tem início gradual que conduz a sintomas constitucionais mais graves e prostração. O sangramento ocorre em cerca de 15 a 30% dos casos. Ocorrem febre, mialgias, dor de garganta, náusea, vômitos, dor torácica e dor abdominal. Nos casos graves, ocorrem hipotensão ou choque, hemorragias, convulsões e evolução para o óbito podem ocorrer. Os derrames são comuns e pericardite predominante em homens pode surgir mais tarde. A leucometria é normal ou levemente elevada e as contagens de plaquetas são normais ou um pouco baixas. A surdez coincide com a melhora clínica em torno de 20% dos casos, sendo permanente e bilateral em alguns. Pode ocorrer reinfecção, mas não está associada a doenças graves(8).
Coriomeningite linfocítica
O vírus da coriomeningite linfocítica é um protótipo do Arenavírus. Ele é o mais usado para estudar interações do vírus-hospedeiro, tais como a persistência viral e a doença associada(17). Além disso, serve para estudar os aspectos básicos das células e biologia molecular da febre hemorrágica do Arenavírus(18,19).
O vírus causador é comum em roedores, especialmente no rato cinzento doméstico e no hamster. Esses animais normalmente são infectados pelo vírus durante toda a vida, excretando-o por urina, fezes, sêmen e secreções nasais. A exposição à poeira ou ao alimento contaminado é, geralmente, responsável pela infecção nos seres humanos. A doença comumente ocorre no inverno, quando os roedores silvestres procuram abrigo em habitações(8). Estudos experimentais com ratos e macacos infectados pelo vírus da coriomeningite linfocítica (LCMV) indicaram que a inoculação oral conduz às infecções atenuadas, que causam ocasionalmente a doença. Assim, a transmissão oral é biologicamente importante(13).
A infecção de LCMV é assintomática ou causa uma doença auto-limitada suave nos povos saudáveis que não são imunocomprometidos, caracterizada por febre, perda de apetite, dores de cabeça e musculares, náusea e vômitos. LCMV pode causar a meningite asséptica, mas esta é raramente fatal. Nos trimestres mais adiantados da gravidez, entretanto, a infecção de LCMV pode causar defeitos fetais(20).
Normalmente, a doença não pode ser transmitida de pessoa a pessoa (exceto verticalmente durante a gravidez) (20).
Febre hemorrágica sul-americana
É uma doença básica que se assemelha à febre de Lassa, porém, a trombocitopenia é a regra e o sangramento é bastante comum. A disfunção do sistema nervoso central (SNC) é muito mais comum que na febre de Lassa e, com freqüência, manifesta-se por confusão acentuada, tremores dos membros superiores e língua e sinais cerebelares. O laboratório clínico é útil no diagnóstico, uma vez que trombocitopenia, leucopenia e proteinúria são achados típicos(8).
A febre hemorrágica argentina é um exemplo de febre hemorrágica sul-americana. É uma doença endêmico-epidêmica, causada pelo Junin vírus(21) e tem o tecido linfático como um dos alvos principais para a replicação desse vírus(22).
Existe uma vacina viva atenuada, segura e eficaz para a febre hemorrágica argentina8. A transmissão interpessoal ou hospitalar é rara, mas já foram registrados ocorridos(8).
A febre hemorrágica sul-americana tem um período de incubação entre sete e quatorze dias e tem 15 a 30% como taxa de letalidade. Na Argentina, Venezuela e Bolívia atingem todas as idades e ambos os gêneros(8).
REFERÊNCIAS
1. Kuno G, Chang GJ, Tsuchiya KR, Karabatsos N, Cropp CB. Phylogeny of the genus Flavivirus. J Virol. 1998;72(1):73-83.
2. Oldstone MB, Lewicki H, Homann D, Nguyen C, Julien S, Gairin JE. Common antiviral cytotoxic t-lymphocyte epitope for diverse arenaviruses. J Virol. 2001;75(14):6273-8.
3. Perez M, Greenwald DL, de la Torre JC. Myristoylation of the RING finger Z protein is essential for arenavirus budding. J Virol. 2004;78(20):11443-8.
4. Wang F, Kieff E. Virologia Médica. In: Harrison, Braunwald E, Fauci AS, et al. Medicina Interna. 15a ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill; 2002. p.1150-8
5. Cornu TI, Feldmann H, Torre JC. Cells Expressing the RING finger Z Protein are resistant to Arenavirus infection. J Virol. 2004;78(6):2979-83.
6. Luna EJA. A emergência das doenças emergentes e as doenças infecciosas emergentes e reemergentes no Brasil. Rev Bras Epidemiol. 2002;5(3): 229-43.
7. Pekosz A, He B, Lamb RA. Reverse genetics of negative-strand RNA viruses: Closing the circle. PNAS. 1999; 96(16): 8804-6.
8. Peters CJ. Infecções causadas por vírus transmitidos por artrópodes e roedores. In: Harrison, Braunwald E, Fauci AS, et al. Medicina Interna. 15a ed. Rio de Janeiro: McGraw-Hill; 2002. p. 1221-34.
9. Sewell DL. Laboratory safety practices associated with potential agents of biocrime or bioterrorism. J Clin Microbiol. 2003;41(7):2801-9.
10. Spiropoulou CF, Kunz S, Rollin PE, Campbell KP, Oldstone MB. New World arenavirus clade C, but not clade A and B viruses, utilizes alpha-dystroglycan as its major receptor. J Virol. 2002;76(10):5140-6.
11. Jácamo R, López N, Wilda M, Franze-Fernández MT. Tacaribe virus Z protein interacts with the L polymerase protein to inhibit viral RNA synthesis. J Virol. 2003;77(19):10383-93.
12. Borio L, Inglesby T, Peters CJ, Schmaljohn AL, Hughes JM, Jahrling PB, Ksiazek T, Johnson KM, Meyerhoff A, O'Toole T, Ascher MS, Bartlett J, Breman JG, Eitzen EM, Hamburg M, Hauer J, Henderson DA, Johnson RT, Kwik G, Layton M, Lillibridge S, Nabel GJ, Osterholm MT, Perl TM, Russell P, Tonat K; Working Group on Civilian Biodefense. Hemorrhagic fever viruses as biological weapons: medical and public health management. JAMA. 2002;287(18):2391-405.
13. Lukashevich IS, Tikhonov I, Rodas JD, Zapata JC, Yang Y, Djavani M, Salvato MS. Arenavirus-mediated liver pathology: acute lymphocytic choriomeningitis virus infection of rhesus macaques is characterized by high-level interleukin-6 expression and hepatocyte proliferation. J Virol. 2003;77(3):1727-37.
14. Asper M, Sternsdorf T, Hass M, Drosten C, Rhode A, Schmitz H, Günther S. Inhibition of different Lassa virus strains by alpha and gamma interferons and comparison with a less pathogenic arenavirus. J Virol. 2004;78(6):3162-9.
15. Fisher-Hoch SP, Hutwagner L, McCormick JB. Effective vaccine for Lassa Fever. J Virol. 2000;74(15):6777-83.
16. Boesen A, Sundar K, Coico R. Lassa Fever virus peptides predicted by computational analysis induce epitope-specific cytotoxic-T-lymphocyte responses in HLA-A2.1 transgenic mice. Clin Diagn Lab Immunol. 2005;12(10):1223-30.
17. Torre JC, Perez M. Characterization of the genomic promoter of the prototypic Arenavirus lymphocytic choriomeningitis Virus. J Virol. 2003;77(2):1184-94.
18. Perez M, Craven RC, Torre JC. The small RING finger protein Z drives arenavirus budding: Implications for antiviral strategies. Proc Natl Acad Sci USA. 2003;100(22):12978-83.
19. Christen U, Benke D, Wolfe T, Rodrigo E, Rhode A, Hughes AC, Oldstone MB, von Herrath MG. Cure of prediabetic mice by viral infections involves lymphocyte recruitment along an IP-10 gradient. J Clin Invest. 2004;113(1):74-84.
20. Hoey J. Lymphocytic choriomeningitis virus. CMAJ. 2005; 173 (9). doi:10.1503/cmaj.051184
21. Lozano ME, Enría D, Maiztegui JI, Grau O, Romanowski V. Rapid diagnosis of Argentine hemorrhagic fever by reverse transcriptase PCR-based assay. J Clin Microbiol. 1995;33(5):1327-32.
22. Laguens M, Chambó JG, Laguens RP. In vivo replication of pathogenic and attenuated strains of Junin virus in different cell populations of lymphatic tissue. Infect Immun. 1983;41(3):1279-83.
Copyright
Hospital Ana Costa S.A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução
do conteúdo desta página em qualquer
meio de comunicação, eletrônico
ou impresso, sem autorização escrita
do Hospital Ana Costa S.A.. Para saber como adquirir
o direito de publicação das notícias
mande sua solicitação para o endereço falecom@revistamedicaanacosta.com.br