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ARTIGO DE REVISÃO

O papel dos alimentos funcionais na prevenção
de doenças crônicas não transmissíveis
The role of the functional food in the prevention of no transmissible
chronic disease

Gustavo Duarte Pimentel(1)

 

(1) Nutricionista Graduado pela Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP, Campus de Lins/SP.

Local onde o trabalho foi realizado: Universidade Metodista de Piracicaba - UNIMEP, Campus de Lins/SP.
Endereço para contato: Gustavo Duarte Pimentel, rua José Caetano de Lima, 682, CEP 16403-088, Lins /SP, e-mail: gupimentel@yahoo.com.br
Recebido em 7 de março, 2006; aceito para publicação em 5 de maio, 2006.

 

RESUMO

Atualmente, as doenças crônicas que mais preocupam os países em desenvolvimento e os pesquisadores estão associados com a dieta.
O aumento no uso de alimentos funcionais é imprescindível, pois diversos estudos têm demonstrado seus benefícios na prevenção de doenças.
Palavras-chave: dieta; doença crônica; alimentos funcionais; prevenção.

 

ABSTRACT

Currently the chronic diseases that more worry the developing countries and the researchers are associates with the diet.
The increase in the functional food use is essential; therefore diverse studies have demonstrated its benefits in the disease prevention.
Keywords: diet; chronic disease; functional food; prevention.

 

 

INTRODUÇÃO

O conceito de alimentos funcionais provém da hipótese de que a dieta possa controlar e modular várias funções orgânicas, contribuindo para a manutenção da saúde e reduzindo o risco de doenças(1).
A American Dietetic Association inclui como os alimentos funcionais os produtos integrais, fortificados ou enriquecidos, que apresentam potencialmente efeitos benéficos para a saúde, quando consumidos como parte de uma dieta variada(2). Vários alimentos não possuem seus benefícios cientificamente comprovados, dada a variedade de oferta de alimentos e a grande quantidade de avaliações para que determinado componente tenha seu efeito aceito(3).
Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Nutrição tem como uma das áreas prioritárias a promoção da saúde da comunidade e a prevenção de diversas doenças crônicas(4).
Atualmente, as doenças crônicas que mais preocupam os países em desenvolvimento e com altas taxas de mortalidade estão associadas com a dieta3, câncer, obesidade, hipertensão arterial, hipercolesterolemia e doenças cardiovasculares. Baseado nisso, o objetivo dessa revisão é mostrar o papel dos alimentos funcionais na prevenção de riscos de doenças crônicas não transmissíveis.

Fibra Alimentar
A fibra alimentar é construída como polissacarídeos e substâncias associadas que, quando ingeridos, não sofrem hidrólise, digestão e absorção no intestino delgado de humanos(3).
Dentre inúmeros alimentos pesquisados, certamente as fibras são as que merecem maior atenção devido às suas propriedades funcionais cientificamente comprovadas. Elas se destacam, dentre outros alimentos, devido à sua capacidade na redução do colesterol(5).
A viscosidade é a principal característica da fibra responsável pela diminuição do colesterol plasmático e das lipoproteínas de baixa densidade. Os polissacarídeos viscosos podem afetar o metabolismo de lipídios por meio de diferentes vias, incluindo o aumento da excreção de ácidos biliares e a diminuição da absorção de lipídios(3).
A quantidade recomendada de fibras pela American Dietetic Association é de 20 a 35g/dia. A qualquer aumento no consumo de fibra, há também a necessidade de aumentar a ingestão de água(6).
Produtos com aveia são uma fonte dietética amplamente estudada de fibras solúveis b-glucan redutoras de colesterol. Há uma concordância científica significativa de que o consumo desse alimento vegetal, em particular, pode reduzir o colesterol total e a LDL, desse modo, reduzindo o risco de doenças cardíacas coronarianas. Assim, a FDA outorgou o primeiro alimento específico com alegação de promoção de saúde, em janeiro de 1997(7).
Pesquisas também têm demonstrado que o consumo de fibras alimentares reduz o risco de câncer de mama(8,9).
Um estudo com 48.835 mulheres na pós-menopausa, com idades de 50 a 79 anos, durante 8,1 anos, mostrou que a dieta baixa em gorduras e com aumento em frutas, vegetais e fibras alimentares não diminuí o risco de câncer colorretal nessas mulheres, sendo que desse total de participantes 19.541 (40%) pertenciam ao grupo educativo(10).

Probiótico
Os probióticos foram definidos como uma monocultura ou uma mistura de culturas de microorganismos viáveis que, quando aplicada ao homem ou ao animal, afeta o hospedeiro beneficamente, melhorando as propriedades da microflora nativa no trato gastrintestinal(11).
Como função benéfica ao organismo, os probióticos têm efeito sobre o equilíbrio bacteriano intestinal, controle do colesterol, das diarréias e redução do risco de desenvolvimento do câncer(1).
Estudos realizados em ratos demonstraram que as bactérias do iogurte (S. thermophilus e L. bulgaricus) têm, possivelmente, efeito sinérgico com Bifidobacterium bifidum, que causa significativa redução do colesterol total. Mas, embora haja diversos trabalhos em animais relatando resultados positivos, ainda não há consenso sobre o efeito em seres humanos(12).
Quando se formam os sais biliares, há necessidade de colesterol, por isso, ao ocorrer emulsão das gorduras pelos sais biliares, eles serão reabsorvidos pelas paredes do intestino e levados até o fígado para serem reaproveitados. Se os sais forem desconjugados ou dehidroxilados por bactérias no intestino, essa reciclagem não irá ocorrer. Então, o organismo terá que utilizar mais colesterol para fabricar mais sais biliares e, portanto, os probióticos farão diminuir os níveis de colesterol no sangue(13).

Alho
O alho (Allium sativum) é provavelmente a erva mais amplamente citada na literatura por propriedades medicinais(14). Os benefícios à saúde propostos para o alho são numerosos, incluindo quimioprevenção do câncer, propriedades antibióticas, anti-hipertensivas e redutoras do colesterol(15).
A alicina e os outros compostos sulfurosos voláteis são responsáveis por suas propriedades como alimentos funcionais. O alho é considerado protetor contra as doenças cardiovasculares, por reduzir a concentração de colestrol sérico, a pressão sanguínea e inibir a agregação plaquetária(3).
Tem-se sugerido que o consumo de extrato de alho (pó de alho) a 2.700 mg/d por indivíduos normolipidêmicos possa ser benéfico na prevenção de doenças cardiovasculares, devido à redução da agregação plaquetária(3).
Já o dialilssufeto, presente nos vegetais do gênero Allium, como a cebola, alho, alho-poró e cebolinha, mostrou inibir vários tipos de câncer. Essa ação parece estar envolvida com a capacidade de excreção de produtos carcinogênicos(16).

Gengibre
O gengibre contém o gingerol como princípio ativo e componentes voláteis aromatizantes, entre os quais, o zingibereno e o geranial, presentes em maiores quantidades. O efeito contra as doenças cardiovasculares está relacionado com a forte inibição da agregação plaquetária(3).
Atualmente, a berinjela é bastante consumida no Brasil, pois, segundo critérios da medicina popular, é dotada de virtudes hipocolesterolêmicas. Os polifenóis, saponinas, esteróides e flavanóides presentes na berinjela são os possíveis responsáveis por essa ação hipocolesterolêmica. A ingestão de flavanóides obtidos da berinjela de 1 mg/100g de peso corpóreo/dia, tem demonstrado ação hipolipídica em ratos, além de uma possível ação antioxidante(3,17).

Vinho e uvas
Há uma evidência crescente de que o vinho, particularmente o vinho tinto, pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares(18). O rico conteúdo fenólico do vinho tinto, que é de 20 a 50 vezes mais alto do que no vinho branco, é devido à incorporação das cascas da uva na fermentação do suco de uva durante a produção. Outra pesquisa demonstrou que uvas pretas sem sementes e vinhos tintos contêm altas concentrações de fenólicos, enquanto que a uva verde contém baixa quantidade de fenólicos(19).
O vinho sem álcool também tem demonstrado poder aumentar a capacidade antioxidante no plasma20. E o suco de uva comercial é eficaz em inibir a oxidação de LDL(21).

Omega-3
Os ácidos graxos Omega-3 são uma classe essencial de ácidos graxos poli-insaturados derivados principalmente de óleo de peixe(22).
O consumo de 35g ou mais de peixe diariamente pode reduzir o risco de morte por infarto agudo do miocárdio23. Em um estudo feito com 20.000 médicos norte-americanos durante 11 anos, observou-se que uma porção de peixe por semana estava associado com risco significativamente reduzido da mortalidade cardiovascular(24).

 

CONCLUSÃO

Desde a década de 70, uma enorme quantidade de pesquisas vem demonstrando os benefícios dos alimentos funcionais, com isso, o aumento no uso desses alimentos é imprescindível.

 

REFERÊNCIAS

1. Borges VC. Alimentos Funcionais: Prebióticos, Probióticos, Fitoquímicos e Simbióticos. In: Waitzberg DL. Nutrição oral, enteral e parenteral na prática clínica. 3a ed. São Paulo: Atheneu; 2000. p.1495-509.
2. [ADA] American Dietetic Association. Position of the American Dietetic Association: Phytochemicals and functional foods. J Am Diet Assoc. 1999;95:493-6.
3. Colli C, Sardinha F, Filisetti TMCC. Alimentos Funcionais. In: Cuppari L. Guia de Nutrição: Nutrição clínica no adulto. São Paulo: Manole; 2005. p.71-87.
4. Cervato AM, Derntl AM, Latorre MRDO, Marucci MFN. Educação nutricional para adultos e idosos: uma experiência positiva em Universidade Aberta para a Terceira Idade. Rev Nutr Campinas. 2005;18(1):41-52.
5. Oliveira MC, Sichieri R. Fracionamento das refeições e colesterol sérico em mulheres com dieta adicionada de frutas ou fibras. Rev Nutr Campinas 2004;17(4):449-59.
6. Frank AA, Soares EA, Fernandes AS, Santinoni E. Carboidratos e fibras alimentares. In: Frank AA, Soares EA. Nutrição no envelhecer. São Paulo: Atheneu; 2002. p.45-71.
7. [DHHS/FDA] Dept. Health and Human Services/Food and Drug Administration. Food labeling: Health claims; oats and coronary heart disease. 1997;62:3584-601.
8. Cohen LA. Dietary fiber and breast câncer. Anticancer Res. 1999;19:3685-8.
9. Willett WC. Diet and breast cancer. J Intern Med. 2001;249:395-411.
10. Beresford SA, Johnson KC, Ritenbaugh C, Lasser NL, Snetselaar LG, Black HR, Anderson GL, Assaf AR, Bassford T, Bowen D, Brunner RL, Brzyski RG, Caan B, Chlebowski RT, Gass M, Harrigan RC, Hays J, Heber D, Heiss G, Hendrix SL, Howard BV, Hsia J, Hubbell FA, Jackson RD, Kotchen JM, Kuller LH, LaCroix AZ, Lane DS, Langer RD, Lewis CE, Manson JE, Margolis KL, Mossavar-Rahmani Y, Ockene JK, Parker LM, Perri MG, Phillips L, Prentice RL, Robbins J, Rossouw JE, Sarto GE, Stefanick ML, Van Horn L, Vitolins MZ, Wactawski-Wende J, Wallace RB, Whitlock E. Low-fat dietary pattern and risk of colorectal cancer: the Women's Health Initiative Randomized Controlled Dietary Modification Trial. JAMA. 2006;295(6):643-54.
11. Havenaar R, Tem Brink B, Huis IN´T Veld JHJ. Probiotics, the Scientific Basis. Fuller, R. London: Chapmann & Hall; 1992. p.209-24.
12. Beena A, Prasad V. Effect of yogurt and bifidus yogurt fortified with skim milk powder, condensed whey and lactose-hydrolysed condensed whey on serum cholesterol and triacylglycerol levels in rats. J Dairy Res. 1997;64(3):453-7.
13. Nakamura Y, Yamamoto N, Sakai K, Takano T. Antihypertensive effect of sour milk and peptides isolated from it that are inhibitors to angiotensin I-converting enzyme. J Dairy Sci. 1995;78(6):1253-7.
14. Nagourney RA. Garlic: Medicinal food or nutritious medicine? J Med Food. 1998;1:13-28.
15. Srivastava KC, Bordia A, Verma SK. Garlic (Allium sativum) for disease prevention. S Afr J Sci. 1995;91:68-77.
16. Birt DF, Shull JD, Yaktine AL. Quimioprevenção do câncer. In: Shills ME, Olson JA, Shike M, Ross AC. Tratado de nutrição moderna na saúde e na doença. 9a ed. Rio de Janeiro: Manole. 1999; p.1349-83.
17. Kritchevsky D, Tepper SA, Story JA. Influence of an eggplant (Solanum melongena) preparation on cholesterol metabolism in rats. Exp Pathol. (Jena) 1975;10(3-4):180-3.
18. Saint Leger AS, Cochrane AL, Moore F. Factors associated with cardiac mortality in developed countries with particular reference to the consumption of wine. Lancet. 1979;1(8124):1017-20.
19. Kanner, J, Frankel E, Granit R, German B, Kinsella JE. Natural antioxidants in grapes and wines. J Agric Food Chem. 1994;42: 64-9.
20. Serafini M, Maiani G, Ferro-Luzzi A. Alcohol- free red wine enhances plasma antioxidant capacity in humans. J Nutr. 1998;128:1003-7.
21. Day AP, Kemp H.J, Bolton C, Hartog M, Stansbie D. Effects of concentrated red grape juice consumption on serum antioxidant capacity and low-density lipoprotein oxidation. Ann Nutr Metab. 1998;41:353-7.
22. Simopoulus AP. Omega-3 fatty acids in health and disease and in growth and development. Am J Clin Nutr. 1991;54(3):438-63.
23. Daviglus ML, Stamler J, Orencia AJ, Dyer AR, Liu K, Greenland P, Walsh MK, Morris D, Shekelle RB. Fish consumption and the 30-year risk of fatal myocardial infarction. N Engl J Med. 1997;336(15):1046-53.
24. Albert CM, Hennekens CH, O'Donnell CJ, Ajani UA, Carey VJ, Willett WC, Ruskin JN, Manson JE. Fish consumption and risk of sudden cardiac death. JAMA. 1998;279(1):23-8.

 

 

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