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ARTIGO ORIGINAL

Nutrição em recém-nascidos prematuros
Nutrition in premature newborns

Lucia Marcela da Silva Magalhães(¹)
José Newton Bicudo(²)

 

(1) Médica residente do Serviço de Pediatria do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
(2) Médico Pediatra especialista em Terapia Intensiva Pediátrica.

Local onde o trabalho foi realizado: Serviço de Pediatria do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
Endereço para contato: Rua Amazonas, 165 ap. 2, CEP 11075-420, Santos SP, e-mail: luma.magalhães@terra.com.br
Recebido em 30 de dezembro, 2005; aceito para publicação em 15 de maio, 2006.

 

RESUMO

Introdução: os recém-nascidos pré-termos possuem uma reserva nutricional baixa, devendo-se introduzir-lhes alimento o mais rápido possível, verificando se há necessidade ou não de suplemento calórico. Quando a tolerância à dieta é boa e o prematuro está estável, a dieta começa a ser aumentada a cada dia. Alguns prematuros não toleram, durante muitos dias, o aumento da dieta oral, exigindo progressão bem lenta até o objetivo básico.
Objetivo: mostrar o quanto é necessário o acompanhamento rígido dos recém-nascidos pré-termos, avaliando os seguintes dados: gênero, idade gestacional (IG), peso ao nascer, tempo de jejum, idade de início da nutrição enteral e parenteral, oferta calórica enteral média e a oferta parenteral média. Casuística e método: como objeto de análise, foram observados 42 recém-nascidos pré-termos, na UTI Neonatal, a fim de avaliá-los, quanto ao seu estado físico, para maior esclarecimento da pesquisa. Resultados: 42 recém-nascidos prematuros, ocorreram quatro óbitos, correspondendo a 9,52%.
Palavras-chave: nutrição; recém-nascido pré-termo.

 

ABSTRACT

Introduction: The newborns have a low nutritional reserve. Feeding should be introduced quickly in order to check if there is the necessity of caloric supplement. When the tolerance of the diet is good and the premature child is stable, the diet starts to be increased day by day. Some premature children do not tolerate the increase of oral diet during many days requiring very slow progress until the basic objective.
Aim: To study the necessity of rigid follow up of premature newborns, evaluating the following data: gender, age of gestation period, time of fasting, age of enteral and parenteral feeding, enteral and medium parenteral caloric offering.
Patients and methods: As the object of this analysis, we observed forty two premature newborns in the intensive care unit in order to evaluate them regarding the state of physical health. Results: There were four deaths out of the forty two premature newborns corresponding to 9.52%
Keywords: nutritional; premature; newborn.

 

 

INTRODUÇÃO

A alimentação representa contínuo desafio, principalmente em prematuros ou crianças com baixo peso ao nascer. Técnicas alimentares específicas e tipos variados de alimentos podem influenciar no desenvolvimento, morbidade e mortalidade dos recém-nascidos de uma maneira geral e, particularmente, nos prematuros. Existem controvérsias sobre qual o melhor alimento, qual a época ideal para o início da nutrição enteral, de que forma realizá-la, com que freqüência oferecer e com qual volume iniciar e incrementar o aporte nutricional¹.
O nascimento de uma criança prematura representa uma urgência nutricional. Elas apresentam reservas nutricionais para poucos dias e, quanto menor o peso ao nascer, menor é sua reserva nutricional. Os recém-nascidos prematuros perdem de 10 a 20% de seu peso corporal nos primeiros dias de vida e esgotam rapidamente seus limitados estoques de nutrientes¹,².
As necessidades nutricionais, a dinâmica de crescimento e a formação do vínculo mãe-filho têm, no período pós-natal, um momento crítico com possíveis implicações em curto e em longo prazo. As reservas de calorias não-protéicas não conseguem manter o metabolismo basal por mais de dois dias, necessitando de um suplemento calórico e protéico dentro dos primeiros dois dias após o nascimento²,
³.

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

Foi realizado levantamento retrospectivo de prontuários médicos, no período de janeiro de 2004 a dezembro de 2004, de recém-nascidos pré-termo, internados na UTI Neonatal do Hospital Ana Costa, Santos, SP, totalizando 42 pacientes (tabela 1).
Avaliamos os seguintes dados: gênero, idade gestacional (IG), peso ao nascimento, dias de internação, tempo de jejum, idade de início da nutrição enteral, idade de início da nutrição parenteral, oferta calórica enteral média e oferta calórica parenteral média.
Os dados foram apresentados no programa estatístico SPSS for MS Windows Release 6.0.

 

RESULTADOS

Através do levantamento de dados, foram encontrados quarenta e dois recém-nascidos pré-termos, sendo 20 do gênero feminino (47,61%) e 22 do gênero masculino (52,38%).
A idade gestacional média foi de 32 semanas e 6 dias (desvio-padrão 3 semanas), a idade gestacional mínima, de 24 semanas e 5 dias, e a idade gestacional máxima, de 36 semanas e 5 dias.
O peso de nascimento médio foi de 1888,05 g (desvio-padrão 730,45 g), o peso mínimo de nascimento, 480 g e peso máximo de nascimento, 3400 g.
O tempo médio de internação foi de 24,5 dias (desvio-padrão 18,97), o mínimo de dias de internação foi um dia e, o máximo 86 dias.
O tempo de jejum médio foi de 5,43 dias (desvio-padrão 9,19) quando 45,2 % ficaram até 3 dias em jejum. O mínimo foi nenhum dia de jejum e, o máximo, 60 dias de jejum.
A média de início de nutrição enteral foi de 5,55 dias (desvio-padrão 9,28), com 47,6% dos casos iniciados até três dias. O mínimo foi iniciado ao nascimento e, o máximo, com 60 dias. A oferta calórica enteral média foi de 113,4 kcal/kg/dia (desvio-padrão 55,97), sendo a oferta calórica mínima de 5,52 kcal/kg/dia e a oferta calórica enteral máxima de 233,15 kcal/kg/dia.
Dos 30 recém-nascidos que receberam nutrição parenteral, o tempo médio de início da nutrição parenteral foi de 3,47 dias (desvio-padrão 1,17), com 60% dos casos iniciados até três dias, sendo a idade de início mínima de dois dias e, a máxima, de sete dias. A oferta calórica parenteral média foi de 47,95 kcal/kg/dia (desvio-padrão 7,28), com oferta calórica mínima de 34,84 kcal/kg/dia e a oferta calórica máxima de 63,35 kcal/kg/dia.
Dos 42 recém-nascidos prematuros, ocorreram quatro óbitos (9,52%).

 

 

DISCUSSÃO

O nascimento de uma criança pré-termo representa uma urgência nutricional², pois apresenta reservas nutricionais de poucos dias e, quanto menor o tamanho ao nascer, menor essa reserva(2,3). A alimentação do recém-nascido pré-termo visa alimentá-lo de forma adequada para promover um crescimento e desenvolvimento próximo ao padrão normal(2,3,4,5,6).
O leite materno é o melhor alimento para o recém-nascido(1,4). Quando o seu uso não é possível, a fórmula láctea pode ser utilizada1. O leite materno deve ser oferecido quando a criança estiver estável2. Além do conteúdo nutricional, encontram-se as propriedades anti-infecciosas4,6, além do potencial benefício para a saúde física e psicológica da mãe4. O leite materno do prematuro tem alta concentração calórica, alta concentração protéica, de sódio, cloro e baixa concentração de lactose(3,7).
No recém-nascido pré-termo, a partir de 32 a 34 semanas de gestação, a coordenação entre sucção, respiração e deglutição começa a melhorar(2,3,5,6). Indica-se a nutrição enteral para as mesmas doenças tratadas pela nutrição parenteral, desde que o trato gastro-intestinal esteja funcionando. As principais indicações são: recém-nascido com idade gestacional abaixo de 34 semanas ou peso inferior a 1500 g(4,8), sendo a freqüência de oferta a cada 3 a 4 horas ou quando solicitadas pelo recém-nascido(5).
A nutrição enteral deve iniciar com 24 horas(1,3,5,7), de 24-48 horas(4,9) ou de 24-72 horas6. No levantamento dos prontuários, iniciou em média com 90 horas (47,6% iniciaram com 72 horas).
Entre as vantagens do início precoce, estão: a promoção da motilidade intestinal, melhor tolerância alimentar, redução de incidência de sepse e indução da atividade da lactose(2,3), maior ganho de peso, incidência mais baixa de disfunção hepática e menor ocorrência de raquitismo clínico(3).
A oferta calórica enteral média foi de 113,4 kcal/kg/dia, enquanto, na literatura, encontra-se de 60 a 80 kcal/kg/dia9, 90 a 120 kcal/kg/dia3,5, 110 a 130 kcal/kg/dia(1,8) e 110 a 150 kcal/kg/dia(2,6).
Uma das vantagens da nutrição enteral, principalmente se comparada à nutrição parenteral, é a baixa incidência de complicações clínicas significativas. As complicações da nutrição enteral são: mecânicas (erosão e necrose nasal; perfuração gástrica, duodenal ou jejunal; esofagite), gastro-intestinais (distensão, náuseas, vômitos, diarréias, enterocolite necrosante, alteração da flora bacteriana) e infecciosas (pneumonia aspirativa, contaminação do alimento e da sonda)(4).
Devido à complexidade nutricional, aos riscos de complicações e ao custo, a nutrição parenteral deve ser reservada para recém-nascidos nos quais a dieta enteral adequada não é possível. A nutrição parenteral utilizada por período muito curto (menor que três dias) não apresenta benefícios nítidos, particularmente em neonatos maiores, que dispõem de reservas de energia e nutrientes mais importantes. A nutrição parenteral deve ser considerada em recém-nascidos que são metabolicamente estáveis e que podem enquadrar-se nas seguintes classificações: pesando menos de 1800 g e sem perspectiva de receber nutrição enteral significativa por mais de três dias ou pesando 1800 g ou mais e sem perspectiva de receber nutrição enteral significativa por mais de cinco a sete dias(3,5,7).
O aporte calórico na nutrição parenteral varia de 27 kcal/kg/dia (aumentando 10 kcal/kg/dia até 100 kcal/kg/dia)(2), 60 a 80 kcal/kg/dia7 e 85 a 110 kcal/kg/dia3. No levantamento de prontuários, encontrou-se oferta calórica média de 47,95 kcal/kg/dia (oferta calórica mínima de 34,84 kcal/kg/dia e a oferta calórica máxima 63,35 kcal/kg/dia).
As complicações da nutrição parenteral são freqüentes e compreendem aquelas relacionadas ao catéter (mau posicionamento do mesmo, arritmias cardíacas, fenômenos trombo-embólicos), processos infeciosos (por S. aureus, S. epidermidis, fungos) e as metabólicas (hiperglicemia, hipoglicemia, distúrbios de sódio e potássio séricos, acidose hiperclorêmica)(4,5,7,9).

 

REFERÊNCIAS

1. Leite HP. Nutrição enteral em pediatria. Pediatr Mod. 1999;35(7):457-78.
2. Martinez FE, Camelo Jr. JS. Alimentação do recém-nascido pré-termo. J Pediatr. 2001;77(1):S32-40.
3. Rugolo LMSS. Manual de neonatologia. Rio de Janeiro: Revinter; 2000. p.82-99, 155-61, 174-5, 215-20.
4. Carvalho ES, Carvalho WB. Terapêutica e prática pediátrica (2ª ed.) São Paulo: Atheneu; 2000. p.1091-123, 1170-8.
5. Cloherty JP, Stark AR. Manual de neonatologia. Rio de Janeiro: Medsi; 2000;104-43, 284-313, 644-51.
6. Feferbaum R, Quintal VS, Araújo MCK. Aspectos práticos da nutrição enteral do recém-nascido pré-termo. Rev Bras Nutr Clin. 2001;16(4):148-56.
7. Terapia Nutricional no Paciente Grave Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Org). Rio de Janeiro: Revinter; 2001. p.103-16, 135-42.
8. Programa de Atualização em Medicina Intensiva (PROAMI) Associação de Medicina intensiva Brasileira (Org). Porto Alegre: Artmed/Panamericana; 2004. p.83-116.
9. Feferbaum R, Faria IM. Nutrição parenteral no recém-nascido. Rev Bras Nutr Clin. 2001;16(4):157-63.

 

 

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