ARTIGO ORIGINAL
Avaliação de conhecimentos e aprendizado sobre
ceratocone em uma população atendida em
hospital de referência terciária
Learning and knowledge evaluation on keratoconus in a tertiary
hospital population
Eduardo Della Giustina(1)
Miguel José Calix Netto(1)
Priscila Yumi Kitice(2)
Gabriel Zatti Ramos(1)
Marcelo Sobrinho(3)
Luciene Barbosa de Souza(4)
(1) Médico residente do Curso de Oftalmologia do Hospital Oftalmológico de Sorocaba/SP.
(2) Médico residente do Serviço de Oftalmologia Hospital Ana Costa, Santos/SP.
(3) Médico do Setor de Lentes de Contato do Hospital Oftalmológico de Sorocaba/SP.
(4) Doutora em Oftalmologia pela Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina; Coordenadora do Curso de Residência Médica do Hospital Oftalmológico de Sorocaba/SP.
Local onde o trabalho foi realizado: Hospital Oftalmológico Sorocaba, Sorocaba/SP
Endereço para contato: Rua Vicência Faria Versagi 75/42, CEP 18031-080, Sorocaba/SP
Recebido em 30 setembro, 2005; aceito para publicação em 6 de março 2006.
RESUMO
Objetivo: avaliar o nível de conhecimento e aprendizado sobre ceratocone em uma população portadora da patologia atendida em hospital de referência terciário.
Casuística e método: um questionário foi distribuído aleatoriamente a pacientes portadores de ceratocone, durante uma consulta para avaliação quanto à indicação de ceratoplastia. Posteriormente, foi distribuído um material informativo sobre a doença, para que fosse estudado. Após a leitura, o mesmo questionário foi novamente aplicado. Os resultados foram comparados estatisticamente pelo teste t de Student.
Resultados: trinta e um indivíduos responderam aos dois questionários. A média de acertos antes da leitura do material informativo foi de 4,45 questões (49,46%) com desvio padrão (DP) de ±1,02 acerto. Após a leitura, o índice de acertos no mesmo questionário subiu para 7,19 questões (79,9%) e DP ±0,65 acerto. A diferença foi estatisticamente significante, com p<0,0001. Conclusão: o nível de conhecimentos da população estudada a respeito de sua doença é baixo, especialmente nos aspectos que abrangem prognóstico, evolução e tratamento da doença. Contudo, esse quadro de desinformação pode ser mudado com a adoção de medidas apropriadas.
Palavras-chave: ceratocone; transplante; córnea; aprendizado; conhecimento.
ABSTRACT
Objective: to evaluate the knowledge level and learning capacity on keratoconus in a population taken care at a tertiary reference hospital. Patients and methods: a questionnaire was randomly assigned to keratoconus patients during their ocular evaluation for keratoplasty. Subsequently an informative data about the disease was provided to these patients. The same questionnaire was assigned again after the patients have gone through the informative material. The results were compared statistically by Student t test.
Results: thirty one patients answered both questionnaires. The average of correct answers before the study of the informative material was 4.45 questions (49.46%) with a standard deviation (SD) of ±1.02. After the informative data, the level of correct answers raised to 7.19 questions (79.9%) and SD of ±0.65. The difference was statistically significant with p<0.0001. Conclusion: the knowledge on keratoconus of the studied population is low, especially on aspects that range from prognosis to evolution and treatment. However, this picture of disinformation can be changed with the adoption of appropriate measures.
Keywords: keratoconus; transplant; cornea; learning; knowledge.
INTRODUÇÃO
As doenças corneanas são uma causa significativa de baixa de visão e cegueira nos países em desenvolvimento(1). O ceratocone é uma ectasia corneana bilateral, não inflamatória, com incidência de aproximadamente 1:2000 na população geral(2). A córnea foi um dos primeiros tecidos transplantados e ainda é considerada uma intervenção cirúrgica de sucesso. Contudo, um resultado satisfatório para o médico nem sempre significa um paciente satisfeito(3).
A falta de conhecimento sobre a doença e sua evolução leva os pacientes a falhar no tratamento da mesma(4). Dessa forma, a educação efetiva sobre o ceratocone pode beneficiar tanto pacientes como seus familiares. Todo paciente submetido a transplante de córnea deve ter uma informação completa sobre o tipo de transplante ao qual será submetido, cuidado pós-operatório e sinais de rejeição, entre outros, visto que o diagnóstico precoce pode alterar o resultado final do procedimento(5).
O objetivo deste trabalho é avaliar o nível de conhecimento e aprendizado sobre a doença em questão, em pacientes atendidos em um hospital de referência terciária.
PACIENTES E MÉTODO
O estudo foi realizado com pacientes hipertensos no Ambulatório de Cardiologia do Hospital Ana Costa, Santos, no período de julho a dezembro de 2004.
O hospital é particular, atende pacientes conveniados a algum plano de saúde ou particulares. A população atendida, em sua grande maioria, é procedente da Baixada Santista.
O estudo tem características de corte transversal, sobre a adesão ao tratamento. O questionário foi preenchido por médicos cardiologistas do ambulatório, conforme ocorria o atendimento aos pacientes.
O critério de adesão ao tratamento foi usado como parâmetro operacional ao fato de a PA estar ou não controlada, no dia da consulta, independentemente do tipo de tratamento. Foram usados os critérios do Joint National Comittee (JNC) (pressão arterial sistólica menor que 140 mmHg e pressão arterial diastólica menor que 90 mmHg). Enfatiza-se que o estudo não se refere ao abandono ao tratamento ou às consultas. efetiva sobre o ceratocone pode beneficiar tanto pacientes como seus familiares. Todo paciente submetido a transplante de córnea deve ter uma informação completa sobre o tipo de transplante ao qual será submetido, cuidado pós-operatório e sinais de rejeição, entre outros, visto que o diagnóstico precoce pode alterar o resultado final do procedimento(5).
O objetivo deste trabalho é avaliar o nível de conhecimento e aprendizado sobre a doença em questão, em pacientes atendidos em um hospital de referência terciária.
PACIENTES E MÉTODO
Um questionário foi distribuído aleatoriamente durante a avaliação oftalmológica para transplante de córnea em pacientes portadores de ceratocone em um dia de projeto transplante do Hospital Oftalmológico de Sorocaba (HOS). O questionário (figura 1) continha oito questões de resposta simples (sim ou não) e três questões dissertativas, sendo respondido pelos candidatos. Após o seu preenchimento, era solicitado ao paciente ler um texto informativo sobre a doença (figura 2), resumo de um informativo da associação americana de familiares e portadores de ceratocone6. Após a leitura do informativo, era solicitado ao paciente que respondesse novamente o questionário. Foram comparados os escores antes e depois de fornecida informação ao paciente. Para análise estatística foi realizado o teste t de Student e considerado estatisticamente significante p<0,05.
Figura 1 - Questionário aplicado
1- Como é o nome do problema que você possui no olho?
Escreva.
2- Você sabe em que parte do olho ele acontece? Qual?
Escreva.
3- Esse problema é grave?
( ) Sim ( )Não
4- Quem tem esse problema SEMPRE tem que usar lentes de contato?
( )Sim ( )Não
5- O uso de lentes de contato cura o problema ou faz parar a evolução?
( ) Sim ( ) Não
6- Todo paciente que tem esse problema tem que fazer transplante?
( )Sim ( )Não
7- O que causa esse problema?
8- Esse problema faz com que você fique totalmente cego?
( ) Sim ( )Não
9- Os pacientes que fazem transplante nunca mais precisarão usar óculos ou lentes de contato?
( )sim ( )Não
10- O Ceratocone é uma doença contagiosa?
( )sim ( )Não
11- Forçar muito a visão pode piorar a evolução da sua doença?
( )sim ( )Não
Figura 2 - Material informativo sobre a doença
O QUE É CERATOCONE?
É um problema que faz com que a CÓRNEA mude seu formato. Deixa de ser arredondada e adquire uma forma de cone. Isso faz com que a pessoa enxergue embaçado.
O QUE CAUSA CERATOCONE?
As causas ainda são desconhecidas. Porém, existem muitos estudos para tentar descobrí-las.
Uma das possíveis causas seria a genética (HEREDITÁRIA, ou seja, de pai para filho). Outra possível origem seria o fato de as pessoas coçarem muito os olhos por alergia.
QUEM TEM CERATOCONE?
Estima-se que ocorra em uma em cada 2.000 pessoas na população em geral. Geralmente, começa na puberdade ou na adolescência. Tem distribuição mundial sem diferenças geográficas, sociais ou culturais.
SINTOMAS
O principal sintoma de ceratocone é o borramento da visão.
COMO MELHORAR A VISÃO NUM PACIENTE COM CERATOCONE?
Em casos leves a correção é feita com óculos.
Se, mesmo com óculos, a visão ainda não ficar boa, faz-se a tentativa de melhorá-la com lentes de contato. Vale lembrar que o uso das lentes de contato não cura o ceratocone e também não impede a progressão da doença.
TRANSPLANTE DE CÓRNEA
Quando, mesmo com a lente de contato, a visão não ficar boa, fazemos o transplante da córnea, ou seja, nem todo paciente com ceratocone precisa de transplante de córnea.
É importante o paciente saber que, mesmo após o transplante de córnea, o uso de óculos ou até lentes de contato pode ser necessário.
RESULTADOS
Trinta e um indivíduos responderam aos dois questionários. A média de acertos antes da leitura do material informativo foi de 4,45 questões (49,46%) com desvio-padrão (DP) de ±1,02 acerto. Após a leitura, o índice de acertos no mesmo questionário subiu para 7,19 questões (79,9%) DP ±0,65. A diferença foi estatisticamente significante, com p<0,0001 (tabela 1).
O número de acertos para cada questão a que os pacientes foram submetidos, antes e depois da leitura do material informativo, está relacionado na tabela 2.


Nas questões dissertativas de número um e dois, foram consideradas corretas somente se as respostas apresentassem ortografia exata. Essas questões obtiveram, antes do acesso ao material informativo, índices de acertos de 25 (80,65%) e 23 (74,19%) questões, respectivamente. Após a leitura, o índice aumentou para 27 (87,09%) e 26 (83,87%). Essas questões referiam-se apenas ao nome e local onde o ceratocone ocorre.
Em relação à gravidade, evolução e terapêutica do ceratocone, os escores diminuíram consideravelmente. Foram de 11 (35,48%) antes para 18 (58,06%) após a leitura, quando foi perguntado sobre a gravidade da doença. Quando questionados sobre a obrigação do uso de lentes de contato, apenas 6 (19,35%) pacientes souberam a resposta correta, contrastando com 20 (64,51%) após a informação.
Sete (22,58%) pacientes não acreditavam que a lente de contato curava ou cessava a evolução do ceratocone; após o estudo do material, 19 (61,29%) passaram a pensar de maneira correta. Doze (38,70%) responderam que nem todo paciente necessitava de transplante de córnea; após a leitura, esse número subiu para 20 (64,51%).
Referente às causas do ceratocone, apenas 4 (12,90%) sabiam citar os principais fatores relacionados (hereditariedade, genética, patologias associadas, ato de coçar os olhos etc.); no segundo questionário, 21 pacientes (67,74%) responderam corretamente à questão. Apenas 6 (19,35%) pacientes sabiam que o ceratocone não causava cegueira total; após a informação concedida, 13 (41,93%) passaram a ter esse conhecimento.
Questionados sobre o uso de correção óptica após o transplante, 16 (51,61%) pacientes acreditavam que não estariam livres de óculos ou lentes de contato após a cirurgia, número que subiu para 19 (61,29%) no segundo questionamento. Dezenove (61,29%) pacientes tinham consciência de que o ceratocone não era uma doença infecto-contagiosa; no segundo questionário, o número pouco mudou: 20 (64,51%) passaram a ter esse conhecimento.
Antes de o informativo ser lido, apenas 9 (29,03%) pacientes sabiam que fazer esforço para enxergar não piorava a evolução do ceratocone, número que subiu para 20 (64,51%), após a leitura do material informativo.
DISCUSSÃO
O ceratocone é uma patologia heterogênea do ponto de vista genético7. Está entre as causas líderes em cegueira legal por comprometimento corneano e constitui uma indicação muito comum de transplante de córnea8. Apesar dessas considerações, o presente estudo observou um desconhecimento dos portadores de ceratocone em relação à doença. Por ser uma população usuária do sistema público de saúde, dificuldade de acesso à informação é um fato presente na realidade dessas pessoas.
Ao analisar o número de acertos por questão, verifica-se que o nível de conhecimento da população estudada restringe-se muito ao nome e local onde o ceratocone ocorre. O nível de acertos às questões que estão relacionadas ao prognóstico, evolução e tratamento da doença, porém, é muito baixo.
A educação do paciente é uma parte importante do processo de assistência médica4. Numerosos estudos têm demonstrado que baixos índices de obediência ao tratamento estão associados à falta de compreensão da doença pelo paciente(9-11).
Verificamos que, apesar do baixo nível de conhecimento apresentado pelos pacientes nesse estudo, houve uma melhora estatisticamente significante quando apresentado material informativo em forma de texto.
Uiters et al. identificaram que o grau de instrução do paciente está muito relacionado à qualidade de vida após a ceratoplastia. Aliado a bons resultados ópticos, trazem para o paciente maior nível de satisfação3. Um indivíduo melhor orientado compreenderá mais facilmente o seu prognóstico e as intervenções do tratamento(4).
Uma maneira adequada de educar os pacientes deve abranger aspectos cognitivos, emocionais e levar instrução, preferencialmente, de maneira específica a cada paciente. Um alto nível de instrução está fortemente relacionado à satisfação e sugere que educar o paciente é uma ferramenta importante para maximizar o sucesso da terapêutica no ceratocone(3) .
O efeito benéfico de programas educacionais na melhor observância ao tratamento foi demonstrado por vários autores(9,11,12). Nosso estudo demonstrou que há compreensão e aprendizado quando material instrutivo é fornecido na forma de texto. A instituição desses programas por meio de vídeo, folhetos ou através de outros meios interativos, pode ser uma maneira eficaz de se contornar esse problema(11).
Fica claro que, numa população atendida em hospital terciário, no setor público, o nível de instrução referente à doença em questão é muito baixo, o que reforça a necessidade de serem implantados programas educacionais, para que se tenha melhor qualidade na assistência médica.
REFERÊNCIAS
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4. Leal BC, Medeiros FA, Oliveira, BFT, Pinheiro A, Susanna Júnior R, Kara-José N. Fatores associados ao conhecimento de glaucoma numa populacäo de hospital terciário. Rev Bras Oftalmol. 2001;60(8):556-62.
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6. Dowey, W. What is keratoconus? A reference guide for patients and their families. Produced by The National Keratoconus Foundation 1999 (3rd ed)
7. Rabinowitz YS. The genetics of keratoconus. Ophthalmol Clin North Am. 2003;16(4):607-20, vii.
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9. Zimmerman TJ, Zalta AH. Facilitating patient compliance in glaucoma therapy. Surv Ophthalmol. 1983;28 Suppl:252-8.
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11. Costa VP, Vasconcelos JPC, Pelegrino M, Jose NK. O que os pacientes sabem sobre glaucoma? Arq Bras Oftalmol. 1995;58(1):36-41.
12. Norell SE. Improving medication compliance: a randomised clinical trial. Br Med J. 1979;2(6197):1031-3.
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