ARTIGO ORIGINAL
Aspectos epidemiológicos da aderência
ao tratamento de hipertensão arterial
sistêmica
Epidemiological aspects of the treatment adherence in patients
with high blood pressure
Claudia Parente Borges(1)
Rodolfo Leite Arantes(2)
(1) Ex-residente de Cardiologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
(2) Médico Cardiologista do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
Local onde o trabalho foi realizado: Serviço de Cardiologia do Hospital Ana Costa, Santos/SP.
Endereço para contato: Claudia Parente Borges, Rua Antônio Alonso Gonzalez, 162/42, CEP 11420-410, Guarujá-SP, e-mail: clauparente@hotmail.com
Recebido em 14 de fevereiro, 2006; aceito para publicação em 4 de abril, 2006.
RESUMO
Introdução: a hipertensão arterial sistêmica ainda é uma das mais importantes causas de morbimortalidade no mundo e o controle adequado da pressão arterial tem sido alvo de pesquisas e interesse na comunidade médica. Os resultados são divergentes e as críticas são relevantes em relação ao perfil de aderência ao tratamento na população hipertensa. Diante dessa situação, resolvemos verificar qual o nosso perfil de aderência ao tratamento na população hipertensa.
Casuística e método: o trabalho foi realizado com 89 pacientes do Ambulatório de Cardiologia do Hospital Ana Costa, em Santos/SP, por meio de um questionário aplicado pelo próprio médico cardiologista que atendeu os pacientes, a respeito da aderência ao tratamento da hipertensão arterial.
Resultados: nossos resultados foram bastante discrepantes em comparação à literatura, com 86,11% de aderência ao tratamento nos pacientes do gênero masculino e 84,9% do feminino.
Palavras-chave: aderência; hipertensão arterial sistêmica; tratamento
ABSTRACT
Introduction: the systemic high blood pressure is one of the most important death causes in worldwide and the appropriate blood pressure's control has been the center of various researches and the interest of the medical community. The results do not match and the critics related to the medical attendance in the hypertensive population are relevant. Therefore, we have decided to investigate the level of medical attendance in the hypertensive population at Hospital Ana Costa.
Patients and methods: the investigation was accomplished with 89 patients of the Ana Costa Hospital's cardiologic ambulatory, in Santos/SP, through a questionnaire answered by the cardiologists based on the attendance of the arterial hypertension treatment.
Results: our results differ from the literature: 86.11% out of the men and 84.9% out of the women adhere to the treatment.
Keywords: adherence; high blood pressure; treatment.
INTRODUÇÃO
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) é uma das mais importantes causas de morbimortalidade no mundo. É identificada como um dos mais prevalentes fatores de risco para o desenvolvimento de doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, doença vascular periférica, insuficiência renal e insuficiência cardíaca congestiva. A elevada prevalência dessa doença e as devastadoras seqüelas atribuídas ao não adequado controle da pressão arterial (PA) estão bem documentadas e incluem, além das doenças cardiovasculares e renais, a ocorrência de morte prematura. A perspectiva do controle da elevação da PA, por meio de estratégia terapêutica bem aplicada, justifica a alta prioridade que deve ser dada a uma detecção pela classe médica(1, 2).
Apesar da grande variedade e disponibilidade dos agentes anti-hipertensivos para o tratamento da HAS, menos de um terço dos pacientes tem a sua PA adequadamente controlada3. Nos Estados Unidos, a HAS é a doença crônica mais prevalente na população (em torno de 54%) e a maioria (em torno de 75% dos pacientes) não faz tratamento de maneira correta(1, 4).
Recentemente, Hosie & Wiklund(5,6), analisando o controle da PA em dois estudos europeus, referem que grandes diferenças foram detectadas entre a percepção médica, a crença dos pacientes e a realidade do controle da HAS. Em um deles, incluindo Itália, Alemanha, França, Espanha e Reino Unido, apenas 37% dos pacientes hipertensos estavam controlados. Em outro, realizado na França, Itália e Reino Unido, os médicos acreditavam que 76% dos hipertensos estavam controlados, enquanto 95% dos pacientes achavam-se bem controlados.
Apesar de tantos resultados divergentes e de tantas críticas relevantes aos estudos de aderência, eles são considerados importantes e, muito dificilmente, consegue-se analisar e comprovar as razões para a aderência ou não ao tratamento de hipertensos em um só estudo(7).
Neste, pretendemos delinear o perfil dos pacientes que acompanham o Ambulatório de Cardiologia em um hospital geral, mostrando também seu perfil de aderência.
PACIENTES E MÉTODO
O estudo foi realizado com pacientes hipertensos no Ambulatório de Cardiologia do Hospital Ana Costa, Santos, no período de julho a dezembro de 2004.
O hospital é particular, atende pacientes conveniados a algum plano de saúde ou particulares. A população atendida, em sua grande maioria, é procedente da Baixada Santista.
O estudo tem características de corte transversal, sobre a adesão ao tratamento. O questionário foi preenchido por médicos cardiologistas do ambulatório, conforme ocorria o atendimento aos pacientes.
O critério de adesão ao tratamento foi usado como parâmetro operacional ao fato de a PA estar ou não controlada, no dia da consulta, independentemente do tipo de tratamento. Foram usados os critérios do Joint National Comittee (JNC) (pressão arterial sistólica menor que 140 mmHg e pressão arterial diastólica menor que 90 mmHg). Enfatiza-se que o estudo não se refere ao abandono ao tratamento ou às consultas.
RESULTADOS
Dos 89 pacientes entrevistados, 53 eram do gênero feminino e 36 do masculino. No grupo dos pacientes do gênero feminino, a média de idade foi de 61,41 anos (32 a 93). Oito (15,09%) pacientes eram tabagistas e três (5,66%) eram ex-tabagistas; 18 (33,96%) apresentavam diabetes mellitus; 29 (54,71%) eram sedentários; 23 (43,39%) eram obesas; 31 (51,49%) apresentavam dislipidemia e 26 (49,05%) apresentavam antecedente familiar para coronariopatia (tabela 1). A aderência foi confirmada em 45 (84,9%) pacientes (tabela 2), sendo que a média da PAS (pressão arterial sistólica) foi 139 (110 a 200) e a média da PAD (pressão arterial diastólica) foi 83 (60 a 120). Diversas classes de anti-hipertensivos foram utilizadas, sendo em maior número inibidores de enzima de conversora de angiotensina (IECA) (em 31 pacientes/ 58,49%) e diuréticos em 29 pacientes (54,71%).

Tabela 1 – Perfil dos fatores de risco dos pacientes estudados.
No grupo dos pacientes do gênero masculino, a média de idade foi de 59,69 anos (30 a 80). Oito (22,22%) pacientes eram tabagistas e 12 (33,33%) eram ex-tabagistas; 9 (25%) apresentavam diabetes mellitus; 19 (52,77%) eram sedentários; 7 (19,44%) eram obesas; 15 (41,66%) apresentavam dislipidemia e 17 (47,22%) apresentavam antecedente familiar para coronariopatia (tabela 1). A aderência foi confirmada em 31 (86,11) pacientes (tabela 2), sendo que a média da PAS (pressão arterial sistólica) foi 138 (100 a 200) e a média da PAD (pressão arterial diastólica) foi 83 (60 a 120). Da mesma maneira que no grupo feminino, diversas classes de anti-hipertensivos foram utilizados, sendo em maior número diurético (21 pacientes / 58,33%) e IECA e bloqueadores em 13 pacientes (36,11%).

DISCUSSÃO
Nos dados coletados na literatura, relata-se que a aderência ao tratamento farmacológico de longa duração da HAS é considerada muito baixa. Essa não aderência tem sido apontada como um dos principais fatores responsáveis pela falta de controle da PA com suas implicações deletérias já citadas(8, 9, 10).
De acordo com Flack(11), mulheres tendem a aderir melhor ao tratamento anti-hipertensivo e alcançar mais o controle da PA do que os homens. No nosso estudo, a porcentagem de aderência foi semelhante entre os gêneros, pouco maior nos homens, mas o número de mulheres em tratamento é maior.
Segundo Nelson(12), a prescrição médica tem-se modificado com o declínio progressivo no uso de diuréticos e-bloqueadores e aumento no uso de IECA e antagonista de canal de cálcio. Nos nossos resultados, os pacientes ainda têm usado diuréticos em maior escala, assim como IECA.
Os dados do JNC4 mostram que a aderência é menor em pacientes mais idosos. No nosso caso, a maioria dos pacientes era idosa e a maior porcentagem foi aderente. Além disso, segundo JNC4, o maior controle pressórico ocorre nos pacientes que não tinham diabetes mellitus ou doença coronariana associados.
A aderência ao tratamento é um processo comportamental complexo, sobre o qual influencia o envolvimento dos pacientes com a própria condição clínica e também a falta de uma comunicação adequada entre o paciente e o seu médico sobre a doença e as sérias conseqüências do abandono ao tratamento. Essa falta de comunicação pode ser devida à insuficiência de informação prestada, como também à incapacidade de percepção do paciente. De uma forma ou de outra, fica claro que estratégias devem ser desenvolvidas para melhorar a comunicação da informação médica, no intuito de aumentar a aderência ao tratamento proposto. Além disso, a identificação de efeitos colaterais ao tratamento farmacológico instituído também representa uma causa de abandono ao tratamento(13-15).
A identificação de fatores determinantes da não aderência e o seu melhor conhecimento poderia permitir a implementação de medidas que possibilitassem a sua remoção, favorecendo a aderência e propiciando controle mais adequado dos níveis pressóricos(16-18). No nosso estudo, não nos preocupamos com as causas da não aderência. Pensamos, sim, em continuar o estudo conforme vem ocorrendo hoje em dia, para esclarecer melhor a alta taxa de aderência.
Talvez seja necessário inserir nas mesmas a mensagem de que o tratamento da HAS é para a vida toda e que somente o médico está autorizado a modificá-lo, além de outras possíveis recomendações.
O excesso de prevalência total da aderência ao tratamento do nosso estudo (85%), faz-nos levar a algumas especulações como se segue. A primeira refere-se à população alvo com maior poder aquisitivo e acesso a medicamentos de primeira linha no tratamento da hipertensão. A segunda hipótese seria um menor número de drogas utilizadas no tratamento, o que facilita a adesão e a terceira possibilidade um melhor conhecimento das conseqüências relacionadas à hipertensão arterial que seria um facilitador ao tratamento proposto (medicamentos e mudança de estilo de vida). Todas as hipóteses colocadas deverão ser testadas em estudos posteriores.
REFERÊNCIAS
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