ARTIGO DE REVISÃO
Cuidados paliativos - humanizando o processo da morte
Palliative cares - humization of the death process
Cristiane Take Ishikawa(1)
(1) Médica Residente de Clínica Médica do Hospital Ana Costa, de Santos/SP.
Local onde o trabalho foi realizado: Hospital Ana Costa, de Santos/SP.
Endereço para contato: Rua Prof. Torres Homem, 33 ap. 42, Santos/SP - CEP 11025-020. Telefone para contato (13) 3232-1236, e-mail: reishikawa@gmail.com
Recebido em 29 de novembro, 2005; aceito para publicação em 20 de dezembro, 2005.
RESUMO
Cuidados paliativos são os cuidados aos pacientes com uma doença ativa, progressiva e avançada cujo foco é o alívio e prevenção do sofrimento e a qualidade de vida.
Uma comunicação franca e contínua entre familiares, amigos e profissionais de saúde a respeito desses objetivos pode fazer a diferença entre uma morte tranqüila e uma marcada por um sofrimento desnecessário.
Palavras-chave: cuidados paliativos, idosos, cuidados ao fim da vida.
ABSTRACT
Palliative care is the care to patients with active, progressive, far advanced disease, for whom the focus of care is the relief and prevention of suffering and the quality of life.Open communication with family, friends, and health care practitioners about these goals of care can make the difference between a peaceful death and one characterized for unnecessary suffering.
Keywords: palliative care, elderly, end-of-life care.
INTRODUÇÃO
A maioria das pessoas pensa em ter uma velhice tranqüila nos últimos anos de vida e gasta décadas se preparando para isso. Poucos são aqueles que pensam em como seria a vida se tivessem uma doença grave ou como seria a sua morte(1).
Cientes de nossa limitação como profissionais da saúde, devemos deixar de pensar a finitude ou a doença crônica como um fracasso da medicina, visto ser também o alívio da dor e do sofrimento uma de suas metas(2).
Conscientizarmo-nos de que somos finitos consiste em um dos passos fundamentais a serem dados rumo a ressignificação do sentimento da nossa existência. Mas como lidar com as dificuldades diante da morte do outro, insistentemente a lembrar-nos da nossa própria e a dos nossos mais queridos? O sofrimento também nos infunde medo, porque nos vemos em espelho, a fragilidade, a vulnera-bilidade, elementos da nossa condição humana que não gostamos de ver lembrados, porque nos confrontam com o nosso próprio fim. Devemos aproveitar a oportunidade para refletir sobre o nosso processo de envelhecimento e a nossa finitude(3).
A finitude digna pode ser definida como aquela sem dor e com sofrimento minimizado mediante os cuidados paliativos adequados, onde cabe equilibrar as necessidades do paciente e a integridade médica.
Nessa habilidade pressuposta da medicina estão inclusos os cuidados paliativos, cuidados totais prestados ao paciente e à sua família, os quais se iniciam quando a terapêutica específica curativa deixa de ser o objetivo(2).
Cuidados paliativos são os cuidados aos pacientes com uma doença ativa, progressiva e avançada cujo foco é o alívio e prevenção do sofrimento e a qualidade de vida, sem função curativa, de prolongamento ou de abreviação da sobrevida(4,5).
A empatia, bom humor e compreensão são integrantes fundamentais da terapêutica. A abordagem é multidisciplinar, contando com médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas, voluntários, terapeutas ocupacionais e religiosos.
Certamente o fracasso na remissão de sintomas ocorre, em muitas vezes, pela não abordagem do paciente como um todo, envolvido em seu contexto social(2).
Qualquer que seja a doença, independente do quão avançada ela esteja ou de quais tratamentos já tenham sido oferecidos, sempre existe algo que pode ser feito para prover qualidade ao que ainda resta de vida ao paciente(4).
Segundo a Organização Mundial de Saúde, cuidados paliativos consistem na abordagem para melhorar a qualidade de vida dos pacientes e seus familiares, no enfrentamento de doenças que oferecem risco de vida, através da prevenção e alívio do sofrimento. Isso significa a identificação precoce e o tratamento da dor e outros sintomas de ordem física, psicossocial e espiritual(2).
DISCUSSÃO
As pessoas diferem naquilo que consideram importante, especialmente quando estão diante da morte. Algumas querem aproximar-se de suas famílias e de seus amigos para dividir e expressar o seu amor, enquanto outras são incapazes de aceitar a morte iminente e evitam qualquer aproximação.
Ajudar um paciente e sua família a encontrar conforto no processo da morte é, na maior parte das vezes, mais importante do que seguir as prescrições médicas ou corrigir anormalidades físicas(6).
As famílias deveriam estar preparadas para a morte quando ela é esperada e os profissionais de saúde deveriam garantir que informações sobre as mudanças nos pacientes ocorreriam antes e depois dela(7).
Alguns desses sinais são as mudanças no nível de atenção do paciente. Ele passa a maior parte do tempo dormindo e, quando está desperto, encontra-se desatento, confuso e desorientado. Apesar disso, a família deve ser incentivada a aproveitar estes momentos para expressar seus sentimentos e para despedir-se.
Outros sinais de que a morte se aproxima é a diminuição na ingesta de alimentos e líquidos; a ausência de produção de urina; as mudanças de pele, as extremidades se tornam frias e arrocheadas; mudanças no padrão respiratório, a respiração torna-se rápida e superficial, com períodos de apnéia prolongados. Um barulho pode ser ouvido devido ao acúmulo de secreção ou pelo relaxamento dos músculos da garganta.
Fatores como incapacidade de tomar medicação por boca, declínio do estado geral sem fator reversível aparente e se o paciente é acamado pioram ainda mais a mortalidade(8,9,10).
Diante desse quadro, os cuidados paliativos têm como objetivo:
· alívio da dor e outros sintomas estressantes (dispnéia, anorexia, astenia, náusea, depressão, delírio, ansiedade, etc.);
· garantir a vida, considerando a morte como um processo natural;
· não acelerar ou postergar a morte;
· integrar o aspecto psicológico e espiritual no cuidado do paciente;
· oferecer um suporte ao paciente para que ele possa viver da forma mais ativa possível antes da morte;
· oferecer um suporte à família para que ela possa enfrentar o período da doença e a perda de seu ente querido.
Ter uma visão holística do paciente é essencial nos cuidados paliativos e, ao oferecê-los, o desejo do paciente sempre deve prevalecer (4, 10, 11, 12,13).
Estima-se que 52 milhões de pessoas morrem a cada ano e que milhares delas morrem com algum tipo de sofrimento; seja sentindo dor, com problemas espirituais ou psicossociais não resolvidos; ou sentindo medo e solidão.
O sofrimento pode ser definido como a angústia associada a eventos que ameacem a integridade ou a totalidade da pessoa e incluem dor e outros sintomas físicos, o fator psicológico, social, cultural e espiritual. O tratamento da dor e de outras alterações orgânicas deve ser sempre o primeiro a ser feito, pois não se pode cuidar dos outros aspectos se houver desconforto físico.
Os cuidados paliativos são oferecidos por uma equipe multidisciplinar, ou melhor dizendo, interprofissional, onde as equipes reúnem-se regularmente para discutir e planejar estratégias no cuidado do paciente, lembrando que o próprio paciente e sua família devem ser considerados parte desse time(4).
Ajudar a criar um ambiente de tranqüilidade também faz parte dos cuidados paliativos. Preencher o quarto com sons confortáveis e familiares, como a voz dos entes queridos deve ser encorajada. A visita de alguém que personifique a crença do paciente pode ser de grande ajuda também para o conforto dos familiares e devem-se evitar discussões ou desentendimentos próximo ao paciente.
Todas essas medidas visam reduzir o uso de intervenções desconfortáveis, invasivas, desnecessárias e dispendiosas; e capacitar as famílias para que elas possam cuidar melhor de seus entes queridos e passar mais tempo ao seu lado(10).
Entretanto, é importante não confundir a medicina paliativa com eutanásia.
Eutanásia é o ato deliberado de provocar a morte (sem sofrimento) em paciente em fase terminal, por fins misericordiosos. Geralmente, o procedimento é feito com aplicação de substâncias letais. A prática é ilegal no Brasil e em quase todos os países do mundo, exceto na Holanda e na Bélgica.
Medicina paliativa é a especialidade médica que surgiu no Reino Unido há 20 anos, com base nos estudos da assistente social, médica e pesquisadora Cicely Saunders, para proporcionar melhor qualidade de vida a pacientes de doenças incuráveis com perspectiva de morte e também a seus familiares. A idéia é diminuir o tanto quanto possível as dores físicas e psicológicas a partir do diagnóstico.
Ortotanásia é a limitação ou suspensão de procedimentos que prolonguem artificialmente a vida do doente incurável em fase terminal para evitar seu sofrimento, desde que seja essa a sua vontade ou, nos casos em que não possa responder por si mesmo, a de seus representantes legais.
Suicídio assistido é o procedimento em que o médico ajuda tecnicamente o paciente terminal a por um fim na própria vida. A prática só é legal no Estado do Oregon, nos Estados Unidos.
Distanásia é o prolongamento doloroso e/ou com grande sofrimento psicológico do processo de morte por meios artificiais, conduta considerada ilegal e antiética em todo o mundo(5).
Outro aspecto importante é que os cuidados paliativos diminuem consideravelmente as internações hospitalares, representando uma forma racional de empregar recursos. E essa é uma atividade que vem crescendo nos últimos anos, pois há um custo maior do paciente internado, a população está envelhecendo, existe uma tecnologia sofisticada para prover cuidados no domicílio do paciente e a própria divulgação do sistema entre a população(5, 13, 14).
Se as pessoas portadoras de uma doença crônica agressiva fossem questionadas sobre quais as suas expectativas para o futuro, com certeza diriam que:
· não querem sentir dor nem qualquer outro sintoma desagradável;
· gostariam de poder participar das decisões que dizem respeito à sua saúde;
· esperariam que seus desejos fossem respeitados quando não tivessem mais condições de tomar suas decisões.
Com o passar dos anos, observa-se um aprimoramento das equipes de saúde em reconhecer e tratar dos pacientes em cuidados paliativos.
Uma comunicação franca e contínua entre familiares, amigos e profissionais de saúde a respeito desses objetivos podem fazer a diferença entre uma morte tranqüila e uma marcada por um sofrimento desnecessário(1, 10).
REFERÊNCIAS
1. The Merck Manual of Health & Aging. [ periódico online] 1995 [ capturado 2005 Out 5 ]; [ 2 telas ] Disponível em: http://www.merck.com/pubs/mmanual_ha/sec2/ch16/ch16a.html
2. Cuidados paliativos oncológicos. [ periódico online ] 1996 [ capturado 2005 Out 10 ]; [ 60 telas ] Disponível em: http://www.inca.gov.br/conteúdo_view.asp?id=26
3. Py L. Humanizando o adeus à vida. O Mundo da Saúde. 2003; 27: 240- 7.
4. The IAHPC Manual of Palliative Care. [ periódico online ] 2005 [ capturado 2005 Out 7]; [ 21 telas ] Disponível em: http://www.hospicecare.com/manual/principles-main.html
5. Quintanilha L. Tempo de vida. Jornal da tarde 2005 Jul 30; Sua Vida: 4.
6. The Merck Manual of Health & Aging . [ periódico online ] 1995 [ capturado 2005 Out 5 ]; [ 1 tela ] Disponível em: http://www.merck.com/mrkshared/mmanual/section21/chapter294/294a.jsp
7. The Merck Manual of Health & Aging. [ periódico online ] 1995 [ capturado 2005 Out 5 ]; [ 2 telas ] Disponível em: http://www.merck.com/mrkshared/mmanual/section21/294/294e.jsp
8. The Merck Manual of Health & Aging. [ periódico online ] 1995 [ capturado 2005 Out 5 ]; [ 2 telas ] Disponível em: http://www.merck.com/pubs/mmanual_ha/sidebars/sb16_1.html
9. The Merck Manual of Health & Aging. [ periódico online ] 1995 [ caturado 2005 Out 5 ]; [ 1 tela ] Disponível em: http://www.merck.com/pubs/mmanual_ha/sidebars/sb16_2.html
10. Bailey FA, Burgio KL, Woodby LL, et al. Arch Intern Med. 2005; 165: 1722- 7.
11. Zerzan J, Stearns S, Hanson L. JAMA. 2000;284:2489-94.
12. Keay TJ, Schonwetter RS. Am Fam Phys. 1998;57:491-4.
13. Miller S, Gozalo P, Mor V. Am J Med. 2001;111:38-44.
14. Hughes SL, Ulasevich A, Weaver FM. HSR. 1997;32:415-32.
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