Home
Quem Somos
Normas de Publicação
Edição Atual
Números Anteriores
Links
Entre em Contato

 

 

ARTIGO ORIGINAL

Prevalência da infecção do trato urinário em crianças no
Hospital Ana Costa
Prevalence of urinary tract infections in children of
Hospital Ana Costa

 

Darcya Martins Lopes Lourenço1
Paulo Sérgio Ciola2
José Mário da Rocha Brito3

1 Médica residente do Serviço de Pediatria do Hospital Ana Costa, de Santos/SP.
2 Médico Chefe do Serviço e Preceptor da Residência Médica em Pediatria do Hospital Ana Costa, de Santos/SP.
3 Médico Pediatra do Hospital Ana Costa, de Santos/SP.

Local onde o trabalho foi realizado: Serviço de Pediatria do Hospital Ana Costa, de Santos/SP
Endereço para contato: Hospital Ana Costa - Divisão de Ensino, rua Pedro Américo, 60 - 10º andar, Santos/SP - CEP 11075-905, e-mail: divensino@anacosta.com.br
Recebido em 12 de janeiro, 2006; aceito para publicação em 23 de fevereiro, 2006.

RESUMO

Objetivo: abordar a prevalência de infecção do trato urinário no Serviço de Pediatria do Hospital Ana Costa, separando as crianças por idade e gênero, e verificar qual o agente etiológico mais prevalente.
Método e casuística: exames de urina I e urocultura realizados no HAC no período de 01/04/2003 a 28/02/2005, em crianças de 0 a 12 anos. Foram analisados 6.322 exames de urina, dos quais 788 têm critérios de inclusão: urocultura positiva.
Resultados: os dados obtidos na pesquisa foram concordantes com os da literatura: as crianças do gênero masculino apresentam maior suscetibilidade à infecção do trato urinário (ITU) nos primeiros três meses de vida. A Escherichia coli está envolvida como agente microbiano na maior parte dos casos de ITU. Em crianças do gênero masculino, o Proteus mirabilis é mais isolado do que no gênero feminino.

 

ABSTRACT

Objective: to evaluate the prevalence of urinary tract infection in the Service of Pediatrics of Hospital Ana Costa, analysing the children according to the age and gender and determinate the etiologic agent.
Patients and methods: urinalysis and urine culture done in Hospital Ana Costa between 01/04/2003 to 28/02/2005 in children from 0 to 12 years. It was found in 788 from 6322 urinalysis. Positive urine culture.
Results: The data obtained in the research was in agreement with the literature: males are more susceptable to urinary tract infection in the first three months. Escherichia coli is the most prevalent agent in urinary tract infection in children. Among the males, Proteus mirabilis is more frequent than in females.

 

INTRODUÇÃO

O trato urinário normal é estéril1-4. A infecção do trato urinário (ITU) em crianças é uma das infecções bacterianas mais comuns observadas por pediatras. É difícil estimar sua verdadeira incidência e as taxas variam de acordo com gênero, faixa etária, método de coleta de urina e definição de infecção5,6. A prevalência da infecção urinária em crianças dos dois meses aos dois anos que apresentam febre sem foco evidente de infecção, pela história e exame físico, é cerca de 5 a 6%8-10. As ITU nos recém-nascidos ocorrem com maior freqüência por disseminação hematogênica e acometem mais as crianças do gênero masculino. Já a contaminação por via ascendente do aparelho urinário, por agentes microbianos da flora intestinal, constitui o mecanismo patogenético mais freqüente de infecção urinária. Nessa situação, a infecção urinária é mais freqüente no gênero feminino, pois a característica anatômica da uretra feminina, mais curta e mais retificada, favorece a ascensão bacteriana7.
Os pré-escolares, além dos sinais gerais, principalmente febre, apresentam, na maioria das vezes, alterações do hábito miccional e dor na região lombar ou vesical. Disúria, oligúria, policiúria e poliúria podem ser encontradas. Um minucioso exame da genitália é imprescindível, pois a presença de vulvovaginite, balano-postite e sinéquia de pequenos lábios podem simular infecção urinária e alterar o resultado de urina, mostrando piúria e/ou bacteriúria. Nos recém-nascidos e lactentes novos, a ITU geralmente se manifesta por hipoatividade, choro fraco, icterícia, emagrecimento ou peso estacionário, febre de origem aparentemente não definida ou hipotermia (alterações do tipo “infecção generalizada”). Podem coexistir alterações urinárias específicas como retenção urinária, jato fino, micção em gotejamento ou com acentuado esforço. Nesses casos, a associação com problemas anatômicos do trato urinário é muito freqüente. O exame físico geralmente não apresenta alterações podendo, entretanto, fornecer dados como rins palpáveis aumentados de volume e bexiga volumosa, palpável mesmo após a micção7.
A Escherichia coli está envolvida como agente microbiano em 75% dos casos de ITU. Em crianças do gênero masculino, o Proteus sp é isolado em aproximadamente 30% dos casos1-4.
O foco de atenção no cuidado da criança com ITU tem sido não somente relacionado ao diagnóstico e tratamento precoces do episódio infeccioso agudo, como também à minimização do dano renal crônico e suas consequências clínicas. A presença de cicatrizes renais tem sido documentada em 5% a 15% das crianças avaliadas após a primoinfecção urinária febril. O risco de desenvolvimento de dano renal crônico em crianças com poucos episódios de ITU (um ou dois), adequadamente diagnosticados e tratados, ainda não foi quantificado e pode ser mínimo. Em alguns estudos, foi avaliado o risco, a longo prazo, de desenvolvimento de hipertensão arterial e de insuficiência renal crônica em crianças com diagnóstico de ITU. A análise desses estudos mostra que, apesar de não haver cifras precisas para definir o risco de instalação desses eventos mórbidos em crianças com ITU, a combinação de refluxo vésico-ureteral de alto grau, infecção urinária de repetição e cicatriz renal, no momento do diagnóstico da primoinfecção, parece estar associada a um pior prognóstico(1-4).

 

CASUÍSTICA E MÉTODO

O levantamento dos dados foi realizado por meio de uma planilha de dados do laboratório do Hospital Ana Costa (HAC). Dessa planilha, extraíram-se os exames de urina I realizados em crianças dos 0 aos 12 anos, no período de 01/04/2003 a 28/02/2005.
O total de exames levantados foi de 6.322, dos quais 788 tinham critério de inclusão: urocultura positiva. Neste trabalho, a urina foi coletada por saco coletor nas crianças sem controle esfincteriano e, por jato médio, nas outras, após lavagem adequada da zona com sabão e água.

 

RESULTADOS

Dos 6.322 exames de urina I solicitados nesse período, 788 foram positivos (urocultura positiva), 12,5%. Desses: 0,3% nos lactentes de 0 a 3 meses, 4,7% nos de 3 meses a 1 ano e 95% nas crianças de 1 a 12 anos de idade (figura 1).


Figura 1 - Prevalência de ITU em crianças versus a idade.

De todas as uroculturas positivas, 72% eram do gênero feminino contra 28% do gênero masculino. Já na idade de 3 meses a 1 ano, 65% dos casos são do gênero masculino. Nas crianças de 1 a 12 anos de idade, 73% são do gênero feminino.
Em relação ao agente etiológico, em 58% das culturas cresceu Escherichia coli, 14% Proteus mirabilis e 8% Klebsiella pneumoniae (figura 2).


Figura 2 - Prevalência de ITU versus os agentes etiológicos.

Se dividirmos a prevalência dos agentes etiológicos em relação ao sexo encontramos que:
- Gênero masculino: 36% Escherichia coli, 27% Proteus mirabilis e 6% klebsiella pneumoniae (figura 3).


Figura 4 - Prevalência de ITU no gênero feminino versus os agentes etiológicos.

 

DISCUSSÃO

Uma vez formulada a hipótese clínica da ITU, sua suspeita dá-se por meio do exame microscópico e bacteriológico da urina e sua confirmação dá-se através da cultura de bactérias na urina7.

Interpretação do resultado do exame de urina I(7):
- O pH normalmente é ácido. A alcalinidade urinária reduz a confiabilidade do exame por destruir os elementos figurados do sedimento. O pH alcalino pode estar presente nas infecções por Proteus.
- A densidade geralmente não se altera. Quando encontra-se baixa, sugere acometimento do parênquima renal, com perda transitória da capacidade de concentração urinária.
- Albuminúria leve tem pouco valor, sendo conseqüência do estado febril.
- A piúria é considerada quando se encontram, em urina centrifugada, no método de câmara de Neubauer, mais de 10.000 leucócitos. Deve ser valorizada como indício de infecção urinária quando houver sintomatologia clínica. Tanto a infecção pode ocorrer sem piúria, como piúria pode ocorrer sem infecção.
- Aglomerados (grumos) de piócitos e cilindros piocitários reforçam a hipótese diagnóstica.
- Hematúria pode estar presente, principalmente quando há associação com cálculos renais. A hematúria microscópica é comum na cistite aguda.
- A presença de nitrito reforça a hipótese de ITU.

Interpretação do resultado da urocultura(7):
Negativo: quando o número de colônias é inferior a 10.000 colônias/ml.
Suspeito: entre 10.000 e 100.000 colônias/ml. Deve-se repetir o exame para distinguir contaminação pelas bactérias da uretra anterior de ITU com baixa eliminação de germes.
Positivo: maior que 100.000 colô-nias/ml, significando infecção urinária.

- Se colhido o material por punção suprapúbica, cateterismo vesical ou da pelve renal, qualquer número de colônias de bactérias será considerado como resultado positivo.

Com a realização desse trabalho, conseguimos verificar que os dados obtidos no Hospital Ana Costa referentes a prevalência, idade, gênero e agente etiológico na infecção do trato urinário em crianças são concordantes com os da literatura. Meninos são 5 a 8 vezes mais suscetíveis à infecção do que meninas e essa predominância permanece durante os três primeiros meses de vida. Depois, as meninas tornam-se mais propensas à infecção5. A Escherichia coli é, sem dúvida, o agente etiológico mais freqüente de ITU, chegando a ser a responsável por 80 a 90% dos casos. Em meninos, principalmente acima de uma ano de idade, aumenta a ocorrência de ITU por Proteus5.

 

REFERÊNCIAS

1. Koch VH, Zuccolotto SMC. Infecção do trato urinário. Em busca das evidências. J Ped. 2003; 79 (supl.1): 97-106.
2. Smellie JM, Normand ICS, Katz G. Children with urinary infection: a comparison between those with and those whithout vesico-ureteric reflux. Kidney Int. 1981;20:717-22.
3. Dick PT, Feldman W. Routine diagnostic imaging for childhood urinary tract infections: systematic overview. J Pediatr. 1996:128:15-22.
4. Jacobson S, Eklof O, Eriksson CG, Lins LE, Tidgren B. Development of hypertension and uraemia after pyelonephritis in childhood: 27-year follow-up. BMJ. 1989;299:703-6
5. Arap MA, Troster EJ. Infecção urinária em crianças: uma revisão sistemática dos aspectos diagnósticos e terapêuticos. Einstein. 2003;1:26-9.
6. Ginsburg CM, McCracken GH Jr. Urinary tract infections in young infants. Pediatrics. 1962;69:409-12.
7. Silva KD. Infecção do trato urinário. Apothecário Brasil 2005. Internet acesso em 27 fev. 2005. Disponível em: http://geocities.yahoo.com.br/apotecario/ infec.html
8. Fernandes E. Abordagem da criança com infecção urinária. Rev Port Clin Geral. 2004;20;669-72.
9. Hoberman A, Chao HP, Keller DM, Hickey R, Davis HW, Ellis D. Prevalence of urinary tract infection in febrile infants. J Pediatr. 1993;123:17-23.
10. North AF. Bacteriuria in children with acute febrile illnesses. J Pediatr. 1993;63:408-11.

 

Copyright Hospital Ana Costa S.A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do Hospital Ana Costa S.A.. Para saber como adquirir o direito de publicação das notícias mande sua solicitação para o endereço falecom@revistamedicaanacosta.com.br

 

Índice

 

marcasite !