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Fatores de virulência do gênero Actinobacillus
Virulence factors of genus Actinobacillus

 

Joaquim F. C. Neto 1
Luciana C. G. Bezerra 1
Yanne D. F. Santos 1
Luciana Barreto S. Souza 2
Willma J. de Santana 2
Henrique Douglas M. Coutinho 3

1 Discente - Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte - FMJ
2 Docentes – MSc em Microbiologia - Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte - FMJ
3 Docente – MSc em Genética - Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte - FMJ


Local onde o trabalho foi realizado:
Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte - FMJ
Endereço para correspondência: Henrique Douglas Melo Coutinho - Universidade Federal da Paraíba – UFPB - Centro de Ciências Exatas e da Natureza – CCEN - Departamento de Sistemática e Ecologia - DSE - Programa de Pós–graduação em Ciências Biológicas - CEP:58051-900 - e–mail: hdouglas@zipmail.com.br ou hdouglas@bol.com.br

Recebido em 26 de julho, 2005; aceito para publicação em 8 de agosto, 2005.

 

 

RESUMO

Actinobacillus actinomycetemcomitans são pequenos microorganismos Gram-negativos, de morfologia cocobacilar e de crescimento lento. Apesar de serem considerados de pouca virulência, não devem ser desprezados automaticamente como contaminantes. O estado de saúde geral do paciente, o histórico médico, uma variedade de agressões tóxicas ou iatrogênica são determinantes importantes de uma infecção. São agentes quase sempre encontrados na actinomicose, porém, podem provocar doença periodontal grave em adolescentes, abcessos, endocardite infecciosa, osteomielite e outras infecções. O tratamento é mediado quase sempre por tetraciclina ou clorafenicol ou, às vezes, por penicilina G, ampicilina e eritromicina. Além de ter grande importância médica, o gênero Actynobacillus pleuropneumoniae (APP) tem grande importância na medicina veterinária por ser um agente infecto-contagioso predominante de suíno.

Palavras-chave: microorganismo Gram-negativo; virulência; doença periodontal; endocardite infecciosa.

 

 

ABSTRACT

Actinobacillus actinomycetemcomitans are small Gram-negative microorganisms with cocobacilar morphology and of slow growth pattern. In spite of being considered of little virulence, they should not be automatically despised as pollutants. The patient's general health condition, the clinical report, a variety of toxicant or iatrogenic aggressions are of ending importance for an infeccion. They are agents almost always found in the actinomicosis, They can provoke serious periodontal disease in adolescents, abcess, infectious endocardite, osteomielite and other infections. The treatment is generally performed with tetracicline or clorafenicol and sometimes with penicillin G, ampiciline and eritromicine. Besides having great medical importance, the gender Actynobacillus pleuropneumoniae (APP) has great importance in the veterinary medicine for being an predominant agent in swine.

Keywords: Gram-negative microorganism; virulence; periodontal disease; infectious endocardite.

 

 

INTRODUÇÃO

Os Actinobacillus actinomycetencomitans estão designados como pertencentes à família Pasteurellaceae. São microorganismos Gram-negativos, de morfologia cocobacilar e crescimento lento. Três espécies causam infecção nos seres humanos, sendo Actinobacillus actinomycetemcomitans a mais importante. Apesar de considerado de pouca virulência, este agente não pode ser desprezado automaticamente como contaminante. O estado geral de saúde do hospedeiro, histórico médico e uma variedade de agressões tóxicas, traumáticas ou iatrogênicas são determinantes importantes da doença infecciosa 1,2 .

Muitos microorganismos ordinariamente considerados como não-patogênicos têm a capacidade de produzir infecção e doença. Essa propriedade não depende somente dos fatores de virulência, mas também dos mecanismos de defesa do hospedeiro. Fatores como drogas imunossupressoras, uso indiscriminado de drogas antimicrobianas, como antibióticos, provocam perturbação da microbiota normal do organismo, havendo a substituição desta por organismos resistentes. Pode formar-se uma invasão ao hospedeiro na forma de uma infecção secundária ou superinfecção, sobreposta à doença inicial. Não podemos descartar esse gênero numa infecção, sabendo-se que são microorganismos causadores de patologias graves como a endocardite infecciosa, onde representa 3 a 5% dos casos, como a doença periodontal grave em adolescentes, na osteomielite e em outras infecções 2,3 .

Além da sua ação infecciosa em humanos, existe outro gênero de Actinobacillus que é o Actinobacillus pleuropneumoniae (APP), de grande importância na Medicina Veterinária por ser um agente infecto-contagioso predominante de suínos, principalmente na sua fase de crescimento 4 .

 

Desenvolvimento

Endocardite Infecciosa

A endocardite inicia-se com a formação de vegetação estéril de fibrina e plaquetas devido a uma lesão endocárdica. Esse processo é denominado endocardite trombótica não-bacteriana. Há ambiente favorável à aderência de microorganismos que são envolvidos por novas camadas de fibrina e plaquetas. Esse quadro é denominado de endocardite infecciosa, desenvolvido, geralmente, em locais onde o sangue vai de uma fonte com alta pressão, através de um orifício, para um local de baixa pressão, uma vez que os efeitos da pressão e da turbulência sangüínea favorecem a deposição de bactérias provenientes da rápida corrente circulatória. Por essa razão, predomina do lado esquerdo do coração, sendo as valvas mitral e aórtica as mais acometidas. A partir daí, pode-se observar que, para o desenvolvimento da endocardite, são necessários vários mecanismos patogenéticos, entre eles, hemodinâmicos, imunológicos e microbiológicos 5,6,7 .

Há uma gama de agentes microbianos causadores da endocardite infecciosa. Dentre esses microorganismos destacam-se: Streptococcus viridans, Streptococcus bovis, Streptococcus agalactiae, Streptococcus gordonii, Haemophilus sp, Actinobacillus actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella sp e Kingella Kingae . Também fazem parte dessa lista o Staphylococcus aureus e o Enterococcus faecalis , principalmente quando associados à infecção comunitária e ausência de um foco alternativo de infecção. Mais raramente, outros microorganismos também podem causar a endocardite, como o Staphylococcus epidermidis, Coxiella burnetii, Pseudomonas aeruginosa e outros. A cicatrização do processo inicia-se mesmo na ausência de tratamento, porém, só se completa após a antibioticoterapia, quando as populações diminuem e se endotelizam. A valva curada torna-se fibrosada e calcificada, permanecendo susceptível à infecção por toda a vida 5,6,7 .

Há autores que admitem que em determinado momento da doença, o quadro clínico seja mantido por processos imunitários independentemente da presença de microorganismos. Assim, pesquisadores observaram presença de imunocomplexos em 97% dos casos estudados e fator reumatóide em 50% dos casos, dependendo da etiologia. Sabe-se que a endocardite resulta de fatores que predispõem o endotélio a infecções e situações que levam à bacteremia transitória, por isso, acredita-se que esse seja o motivo pelo qual alguns pacientes, diante dos mesmos microorganismos, apresentem apenas quadros de amigdalites e, outros, quadros de endocardite bacteriana 5,6,7 .

Doença Periodontal

A placa bacteriana pode ser definida como uma película não calcificada, fortemente aderida às superfícies dentais, resistindo à presença do fluxo salivar. O termo biofilme é usado para denotar uma comunidade microbiana encapsulada em polímero que se acumula em superfície, que também protege contra colonização de patógenos exógenos. O biofilme constitui-se de depósitos bacterianos e constituintes salivares, com um crescimento contínuo, sendo considerado a principal causa das doenças cárie e periodontal, infecções per-implantares e estomatites. Periodontite é uma lesão inflamatória de caráter infeccioso que envolve os tecidos de suporte dos dentes, leva à perda de inserção conjuntiva, osso alveolar e de cemento radicular. As características clínicas incluem presença de placa bacteriana, eritema, sangramento, edema, sensibilidade, aumento de exsudato gengival, ausência de perda de inserção, ausência de perda óssea, mudanças histológicas, presença de bolsa periodontal e perda óssea alveolar 8,9 .

A arquitetura microscópica da placa bacteriana está bem definida, sendo as células bacterianas arranjadas em agrupamento ou colunas de microcolônias. Esta estrutura é permeável devido à sua porosidade, permitindo que a saliva, o fluido gengival e os líqüidos da dieta infiltrem a placa. O envolvimento de microorganismos na etiologia da doença periodontal está bem estabelecido. Entretanto, uma completa identificação de todos agentes microbianos envolvidos com a doença periodontal, ainda não está totalmente definida. Tem sido estimado que, aproximadamente, 500 espécies diferentes de bactérias habitam a cavidade bucal, sendo a maioria dos microorganismos comensais e, uma pequena porção deles, patógenos oportunistas, causadores também de doenças 8,10 .

As bactérias que colonizam inicialmente a superfície do dente são predominantemente microrganismos facultativos Gram-positivos, tais como Actinomyces viscosus e Streptococcus sanguis . Estes se aderem à película através de adesinas, que interagem com receptores específicos na película dental. Outros mecanismos determinantes da seletividade na colonização da película são estruturas na superfície de certas bactérias, como o Actinobacillus viscosus , denominadas fimbrias, que auxiliam na aderência inicial. Na sucessão ecológica da placa bacteriana, ocorre uma transição do meio ambiente aeróbio, inicialmente caracterizado por espécies Gram-positivas facultativas para um meio altamente privado de oxigênio, com a predominância de microorganismos Gram-negativos anaeróbios. Na colonização secundária, as diferentes espécies de microorganismos aderem-se às bactérias pré-existentes na placa bacteriana. Os fatores de virulência da placa bacteriana dependem da presença ou aumento de microrganismos específicos, que produzem substâncias que mediam a destruição dos tecidos do hospedeiro. A gengiva saudável é representada por características clínicas específicas, como cor rosa-pálida, superfície fosca e pontilhada, consistência firme e resiliente, forma dependente do volume e contorno gengival, sendo a margem fina e terminando contra o dente como lâmina de faca. Quando submetida à sondagem periodontal, sua profundidade poderá variar de 1-3mm, não devendo apresentar sangramento a este exame. As espécies Gram-positivas facultativas relacionadas com a saúde periodontal são principalmente dos gêneros Streptococcus e Actinomyces . Algumas espécies bacterianas encontradas, como o Streptococcus sanguis, Veilonella parvula e Capnocytophaga ochacea foram propostas como sendo protetoras ou benéficas ao hospedeiro, por inibir o crescimento de bactérias periodontopatogênicas como o Actinobacillus actinomycetemcomitans 8,11,12 .

Nas bolsas periodontais, a localização e ou distribuição dos patógenos pode relacionar-se à destruição periodontal. Relatou-se a presença de espécies bacterianas do tipo Prevotella nigrescens na porção média das bolsas periodontais (tecido epitelial), presença de Fusobacterium nucleatum e Treponema denticola (em áreas de placa não aderida), Eikenella corrodens (relacionadas a áreas de placa aderida) e Actinobacillus actinomycetemcomitans , na porção apical da bolsa 13 .

A porcentagem de indivíduos com sítios positivos para as bactérias, Porphyromas gingivalis, Provotella intermedia, Bacteróides forsythus e Actinobacillus actinomycetemcomitans , em pacientes com periodontite foi avaliada e os resultados foram respectivamente 93,5%, 91,6%, 98% e 81,4% para o gênero Actinobacillus actinomycetemcomitans . As três espécies que realmente se destacam são a Actinobacillus actinomycetemcomitans, Porphyromas gingivalis e Prevotella intermedia , devido à sua alta freqüência em lesões periodontais e do seu potencial patogênico 13 .

Pleuropneumonia Suína

A pleuropneumonia suína (PPS) causada pelo Actinobacillus pleuropneumoniae (APP) é uma doença infecto-contagiosa que afeta predominantemente suínos nas fases de crescimento-terminação e pode apresentar-se sob a forma sub-aguda, aguda, superaguda e crônica. Essa doença caracteriza-se por um pleurisma fibrinoso com lesões necro-hemorrágicas e pleuris fibróticos 4 .

A PPS ocorre em todas as regiões do planeta e sua importância epidemiológica relaciona-se com a intensificação da produção suína. No Brasil, a PPS foi descrita pela primeira vez no estado de Santa Catarina 14 .

No diagnóstico sorológico da pleuropneumonia, vários testes têm sido utilizados, entre eles a aglutinação, a fixação de complemento, a soroaglutinação e a inibição de citolisinas. Em uma comparação crítica entre os testes sorológicos, o teste de Elisa e o de neutralização das citolisinas foram os melhores. O Elisa é considerado um teste rápido e sensível, facilmente automatizável, porém, sua especificidade depende da qualidade do antígeno 15,16 .

Um teste de Elisa polivalente baseado em lipolissacarídeos de cadeia longa(LPS-CL) de Actinobacillus pleuropneumoniae (APP) sorotipos 3,5 e 7 foi avaliado ao testar amostra do soro de leitões e matrizes provenientes de 10 rebanhos positivos e 10 rebanhos negativos. Foram classificados como positivos aqueles rebanhos com isolamento prévio APP sorotipos 3,5 ou 7 e rebanhos negativos aqueles submetidos ao controle veterinário, sem notificação de sintomas clínicos, sem lesões de pleuropneumonite suína e sem isolamento do agente 4 .

 

Conclusão

Há ação inflamatória e infecciosa do gênero Actinobacillus tanto em humanos quantos em outras espécies animais. As patologias aqui estudadas mostram-nos que, apesar de ser raro em algumas doenças como na endocardite, não devemos descartar automaticamente a possibilidade de infecção desse agente. Já em outras doenças, como na periodontite, observamos seu alto poder de virulência estando entre as três bactérias que mais afligem a mucosa bucal. Em animais, o gênero A. pleuropneumoniae é uma doença infecciosa predominante de suínos o que é de suma importância pois, a cada dia, cresce mundialmente o consumo da carne suína.

 

Referências

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