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ARTIGO DE REVISÃO

 

Vitiligo e transtorno psiquiátrico

Vitiligo and psychatrics disorders

 

Bernadete Machado Odloak (1)
Clarissa Machado Odloak (2)
Lia Mara Mendes Biason (3)
Vânia Lúcia M. N. Tagliarini (4)

 

(1) Psicóloga clínica
(2) Aluna de graduação do Curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos
(3) Psiquiatra clínica. Médica estagiária do Serviço de Psiquiatria Infantil do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
(4) Médica Dermatologista do Hospital Ana Costa

Local onde foi realizado o trabalho: Hospital Ana Costa, de Santos. Endereço para contato: Hospital Ana Costa - Divisão de Ensino, rua Pedro Américo, 60 – 10º andar – Santos/SP – CEP 11.075-905. Telefone (13) 3202-9243, e-mail: divensino@anacosta.com.br

Recebido em 11 de janeiro, 2005; aceito para publicação em 25 de março, 2005.

 

RESUMO

Vitiligo é uma doença dermatológica crônica, de alta prevalência sem discriminação de gênero e raça. Sua causa é desconhecida, mas a teoria mais aceita é a auto- imune. Há forte correlação com transtornos psiquiátricos.

O artigo visa examinar três áreas específicas 1 o efeito psicológico do vitiligo 2 a importância dos fatores psicológicos e vulnerabilidade genética na etiologia e curso da doença 3 benefícios do tratamento interdisciplinar.

Palavras-chave: vitiligo, distúrbios psiquiátricos

 

 

ABSTRACT

Vitiligo is a cronic skin disorder with high prevalence. The disorder affects all races and both genders equally. The cause is not known. One theory is that people develop antibodies that destroy the melanocytes in their own bodies. There is a interplay between psyche and soma.

The aims of this paper were to determine 3 areas 1 the psycological impact vitiligo has on; 2 how psycological factor contribute to the etiology and course of the illness; and 3 the beneficy of psicological treatment.

Keywords: vitiligo, psychiatrics disorders

 

 

INTRODUÇÃO

As relações entre lesões dermatológicas e transtornos psiquiátricos são complexas; às vezes já pré-existentes; outras vezes, manifestada após quadro dermatológico. O vitiligo é um transtorno melanócitopenico hereditário ou adquirido, comum, caracterizado por máculas brancas cutâneas progressivas e bem circunscritas, anomalias oculares e formação de anticorpos. Apresenta incidência de 1 a 2 % , não respeita raça; igual entre os gêneros. Pode aparecer em qualquer fase da vida, mas é mais constatada entre 10 e 30 anos. Muitos pacientes atribuem seu aparecimento a uma causa emocional ou desencadeado por uma lesão física Fenômeno Koebner 1. As áreas mais comumente acometidas são: joelhos, cotovelos e dedos; áreas periorificiais (olho e boca); axilas, área flexora dos punhos, mucosas (genitais e lábios). Sua distribuição pode ser segmentária unilateral, focal ou generalizada. Sua evolução é imprevisível, podendo caracterizar-se por progressão lenta com períodos de estabilidade e de progressão rápida. Sua causa não é conhecida e existem muitas teorias que tentam explicá-la. A mais aceita é auto-imune, onde anticorpos destroem os melanócitos; outra é que os próprios melanócitos se destroem 1.

 

Ansiedade Generalizada na Infância e Adolescência

É caracterizada por excessiva preocupação em diversos ambientes. Há ausência de fatores orgânicos que justifiquem explicar esses sintomas. Ocorre inabilidade em lidar com a preocupação. Há prejuízo na escola ou outro ambiente e períodos de melhora e de piora.

Clinicamente manifesta-se por irritabilidade, tensão muscular ou sensação de perda de energia, dificuldade para adormecer, ter a sensação de acordar cansado, preocupação excessiva sobre sua competência, perda de atenção e queixas somáticas sem causas específicas. A prevalência desse transtorno na infância varia de 2,7% a 4,6% na população infantil, não existindo prevalência entre os gêneros.

Freud descreveu a ansiedade como resultado de excitação sexual, sem descarga adequada de energia. O modelo psicológico explica ansiedade como uma reação à lembrança de perigos reais ou imaginários.

Teorias comportamentais enfatizam a ansiedade como uma função de condicionamento operante 4. Teorias neurobiológicas consideram distúrbios no eixo hipotalâmico-pituitário-adrenal e a regulação da tireóide e secreção do hormônio de crescimento. Devem estar implicados disfunção de neurotransmissores: noradrenalina, serotonina, adenosina e GABA 4.

 

Relato do Caso

Paciente de 6 anos, pardo, concluiu pré-escola, é residente em Santos, nascido em Santos e católico.

Queixa principal: “manchas brancas no rosto e pernas” há 6 meses.

HMA: segundo informações da mãe, há 6 meses surgiram manchas brancas em região da face. Chegou a procurar médica da região aonde reside, sendo medicado com “pomada”. Não obteve resposta clínica e houve clareamento dos cabelos da criança. Foi diagnosticado vitiligo e encaminhado para dermatologista. Desde então, houve aparecimento de lesão em outra região da face. Após queda sobre o chão apresentou na região do joelho esquerdo nova mancha hipocrômia (Fenômeno Koebner).

Relata que a criança chora muito. É uma criança extremamente ansiosa, preocupada com a mãe, com o horário que os pais chegarão em casa e se pode acontecer algo de ruim. Alguns medos específicos: boneco baby, sapo de brinquedo e de ser repreendido pela mãe.

É filho único, descrito como preciso e perfeccionista.

Atualmente, sua mãe está grávida de 5 meses. O casal trabalha e mantém relacionamento marital estável. Convivem com eles o tio materno, com quem a criança mantém ótimo relacionamento.

Antecedentes pessoais: gestação única, realizou pré-natal. Apresentou intercorrências clínicas, com hiperêmese durante os 9 meses. O parto foi normal.

Hospitalar: peso ao nascer 2460g; altura 44,5cm; amamentação até os 2 meses. Até o primeiro ano de vida chorava muito.

Sustentou pescoço aos 4 meses. Andou aos 9 meses. Falou as primeiras palavras aos 12 meses. Teve controle da enurese diurna aos 2 anos e noturna aos 4 anos e controle da encoprese após 1 ano de vida. Usou chupeta até os 5 anos.

Antecedentes clínicos: viroses, catapora. Nega crises convulsivas e traumatismo craniano.

Hábitos: bruxismo, atualmente em remissão.

Tiques: mastiga gola de blusas.

Antecedentes pessoais: tio materno “nervoso”. Avó paterna “perturbada e agitada”.

Exame do estado mental: menino atraente, adequadamente vestido, de boa aparência. Não havia anormalidade da fala ou comprometimento motor. Pensamento coerente. Não havia evidência de processo psicótico .O conteúdo do pensamento focalizava preocupação com a segurança da mãe e medo de sair de casa. Acreditava que algo terrível pudesse acontecer à sua mãe. Humor ansioso e afeto adequado.

Hipótese diagnóstica: transtorno de ansiedade e vitiligo.

Conduta: fluoxetina 20 mg ao dia. Foi encaminhado para atendimento psicoterápico.

Tratamento dermatológico: pomada com hidrocortisona 2 vezes ao dia e exposição solar com aplicação de filtro solar, fator de proteção 15.

Evolução: após seis meses de tratamento psicoterápico associado ao tratamento medicamentoso, o paciente apresentou melhora da irritabilidade e do quadro de ansiedade, apresentando-se mais obediente e com maior nível de atenção. Mãe relata que paciente não foi muito receptivo ao tratamento psicológico quando proposto inicialmente, mas foi convencido a aceitá-lo. O paciente apresenta-se mais calmo, menos preocupado, tem dormido melhor à noite e aparente melhora das manias. Houve também melhora do quadro de fadiga constante.

As manchas hipocrômicas não apresentaram aumento em sua área e não houve o aparecimento de novas manchas em tegumento.

 

DISCUSSÃO

O tratamento multidiciplinar mostrou-se efetivo para melhora das condições clínicas e psicológicas do paciente.

A postura correta dos pais e familiares perante a criança acometida pela doença faz-se necessária para o sucesso do tratamento.

A orientação destes faz-se através do esforço da equipe médica e psicológica em esclarecer os principais pontos de angústias e dificuldades que os pacientes enfrentam.

Por acometer uma faixa etária ampla, desde pré-escolares até adultos, o vitiligo apresenta diferentes repercussões emocionais e comportamentais.

Neste caso, observamos melhora comportamental do paciente acompanhado de não evolução da doença dermatológica, proporcionando melhor prognóstico.

Estes dados confirmam, mais uma vez, o fator psicossomático da doença.

Além de ser desencadeado devido a fatores psicossomáticos, as mudanças na aparência causadas pelo vitiligo podem afetar o bem-estar emocional e psicológico e criar dificuldades no convívio social. Várias estratégias devem ser utilizadas para ajudar estes pacientes.

Tratamento das lesões e suporte psicoterápico têm-se mostrado a melhor escolha para amenizar os danos causados na aparência do indivíduo e em sua auto-estima, além de tratar também a provável causa.

 

Referências

1. Czyewski DI, Lopes M.Clinical psycology in management of pediatric skin disease. Dermatol Clin. 1998;16930:619-29.

2.  Dermatopatolology Conceptual and pratical. www.ardorscribendi.com/newsletter.html

3. Capoore HS, Rowland Paine CM, Goldin D. Does psycologycal intervention help chonic skin conditions? Postgrad Med J. 1998; 74:662-4.

4. Silvan M. The psycological aspects of vitiligo. Cutis. 2004; 73:163-7.

5. Smith JA. The impact of skin disease on the qualiy of life of adolescents. Adolesc Med. 2001; 12:343-53.

 

 

 

 

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